Olá meu povo, como estamos? Está procurando uma história de terror nacional, que vai te deixar com medo do escuro depois, então O Outro Lado do Rio vai ser perfeito para você.
Livro: O Outro Lado do Rio
Autoria: Eric Durelli
Editora: Skull
Ano: 2025
Páginas: 256
País: Brasil
Formato: Impresso
Nota: 5/5
Gioconda nasceu às margens do rio Tibre em 1922, na Itália. Desde a sua infância, é atormentada por aparições e forças malignas, carregando o dom da destruição para todos à sua volta. No início da Segunda Guerra Mundial, com apenas 18 anos, toma a decisão de fugir do seu país para viver sem as assombrações do passado. Quais os segredos que ela esconde?

A vida de Gioconda Sarelli poderia ser um conto de fadas. Nascida em um lar amoroso, ela vivia às margens do rio Tibre, em contato com a natureza e o ar puro. No entanto, o mundo parece conspirar para que essa paz não reine por muito tempo.
Quando coisas estranhas acontecem dentro de casa, Antenor (pai de Gioconda) já não sabe se pode permanecer tão cético sobre o mundo sobrenatural. Aos poucos, a família sucumbe ao que poderia ser pura loucura, mas Gioconda tenta ver nisso uma forma de seguir adiante e fingir que nada aconteceu.
Anos depois, já adulta, a moça vê a II Guerra Mundial começando a assombrar o povo italiano, trazendo na bagagem os fantasmas que ela havia deixado para trás. Tentando salvar sua vida (e sua sanidade) a jovem parte rumo ao Brasil em busca de um recomeço. Contudo, é difícil fazer isso quando seu pior inimigo é sua mente.
Até que ponto Gioconda realmente está segura e pronta para ter uma nova vida?
“[…] A cada passo, seu passado ia ficando para trás; lembrou-se daquele ditado sobre águas passadas e, coincidentemente, estava caminhando contra o fluxo do córrego.”
Fazia tempo que eu não lia nada do autor. Meu primeiro contato com suas obras foi em Olhos de Anjo, um suspense bem denso e impactante. Porém, essa foi a primeira vez que vi sua veia mais trevosa.
Em ‘O Outro Lado do Rio’, a narrativa é em terceira pessoa. Contudo, só iremos conhecer o narrador muito tempo depois. Ele nos conta em detalhes o passado de Gioconda desde que era um bebê às margens do Rio Tibre, até sua chegada ao Brasil, já mais velha.
No entanto, tudo o que nosso narrador sabe foi contado pela protagonista, que é nenhum pouco confiável. Ou seja, o próprio narrador se torna não confiável por tabela. E aos poucos vamos entendendo o porquê.
A protagonista teve uma vida sofrida desde o berço. Embora não fosse rica em dinheiro, sua família era cheia de amor e carinho para a criança. Só que mal tiveram tempo de demonstrar isso, já que a casa parecia assombrada.
Coisas que saíam do lugar sem explicação. Vozes falando do além. Pessoas que vinham de lugar nenhum e iam para lugar nenhum. A cada dia, viver na casa dos Sareli era um martírio, especialmente com Antenor tentando buscar lógica em tudo, o que só piorava as situações.
Não demorou para Gioconda ficar sem os pais. Porém ela nunca ficou sem companhia. A moça sempre soube que via pessoas que ninguém mais poderia ver. Embora fingisse normalidade, ela sempre ficava tensa pela forma como os fantasmas apareciam e lhe contavam duras verdades. O problema era como essas verdades eram contadas, além do motivo.

“Sair daquele navio foi um alívio, e o cheiro do mar trouxe esperança. Era um mundo novo, uma paz imensurável. Não se viam aviões de guerra sobrevoando o céu, muito menos soldados apontando armas para as pessoas enquanto davam algum tipo de ordem. Estavam no paraíso.”
O autor tem uma escrita fluida e os capítulos são rápidos de serem lidos. Mas isso não impede que o leitor sinta o medo que pulsa das páginas. Gioconda pode conviver com entidades há muito tempo, porém ainda não decidiu se teme mais eles ou os vivos que a cercam.
Com o tempo, percebemos que tudo o que ela queria era um pouco de paz e tranquilidade. Mas o mundo conspira para lhe dar tudo, menos isso. Assim, não demorou até me compadecer da coitada e desejar que tivesse um “final feliz”. Mas estamos falando de um livro de terror. Então já sabia que isso seria impossível.
Toda vez que Gioconda chega perto do que mais deseja, acontece alguma coisa e destrói tudo o que ela construiu. Se ela é uma vítima do mero acaso, ou não está contando a verdade, é uma dúvida constante para nós leitores. O que me deixou mais curiosa e sedenta por respostas.
Além disso, gostei de como o autor trouxe a parte do Brasil repleta de tradições antigas, herdadas dos povos nativos, e até se misturou com as dos novos imigrantes. Aos poucos, tudo começa a fazer sentido e eu não sabia se sentia mais medo ou curiosidade por tudo que era explicado.
Assim como toda a narrativa, o desfecho é narrado de forma não confiável. O que me deixou na dúvida se tudo aquilo aconteceu mesmo ou se era apenas livre interpretação.
Gostei de como o elenco foi desenvolvido, assim como os cenários, que só mudaram de endereço, mas eram sombrios e carregados de segredos. O título é explicado de forma crível e conveniente, rendendo mais pontos para a trama (além de me deixar com mais medo desses personagens).

“[…] E eu? Ficaria aqui por muito tempo morando com um demônio, esperando a sua partida e o fim de todo o mal que causou às pessoas.”
Em resumo, se você gosta de um bom livro de terror, mas está em busca de um nacional, leia ‘O Outro Lado do Rio’. Tenho certeza de que vai se surpreender um bocado. Falando sobre o livro em si, a versão física dele foi um presente do próprio autor.
A capa é bem bonita e segue o padrão de qualidade da Skull (que sempre sou suspeita para falar, já que amo o capricho deles). A diagramação do livro também é muito bonita, trazendo uma boa revisão, com fonte bem legível e folhas mais grossinhas e opacas (que a leitora míope agradece, rs).
Agora me conta: você gosta de livros de terror? E terror nacional?
