25 de junho de 2019

A guerra que salvou minha vida

  Olá meu povo, como estamos? Hoje temos a resenha de um livro super fofo, ao mesmo tempo marcante e triste. Com essa combinação toda, só poderia estar me referindo mesmo ao livro ‘A guerra que salvou minha vida‘, da autora Kimberly Brubaker Bradley.

A guerra que salvou minha vida
Foto: Divulgação

16/33

Livro: A guerra que salvou minha vida

Autora: Kimberly Brubaker Bradley

Páginas: 240

Editora: Darkside

Ano:  2017

Skoob | Amazon


Ada tem dez anos (ao menos é o que ela acha). A menina nunca saiu de casa, para não envergonhar a mãe na frente dos outros. Da janela, vê o irmão brincar, correr, pular – coisas que qualquer criança sabe fazer. Qualquer criança que não tenha nascido com um “pé torto” como o seu. Trancada num apartamento, Ada cuida da casa e do irmão sozinha, além de ter que escapar dos maus-tratos diários que sofre da mãe. Ainda bem que há uma guerra se aproximando.Os possíveis bombardeios de Hitler são a oportunidade perfeita para Ada e o caçula Jamie deixarem Londres e partirem para o interior, em busca de uma vida melhor.

A guerra que salvou minha vida

   Durante a Segunda Guerra Mundial, muita coisa mudou na Europa. As pessoas foram forçadas a mudar hábitos de vida, comer o que nunca acharam que comeriam na vida, racionar o que dava e o que não dava… Foram anos de sofrimento e tragédias. Mas também foram anos que marcaram para o bem a vida de algumas pessoas.
   Ada Smith e seu irmão Jamie são filhos de uma moça pobre e mãe solteira, que trabalha dia e noite num bar para levar o sustento para casa. Seu marido morreu em um acidente grave, e ela tem que cuidar sozinha dos dois filhos, Ada de 13 anos e Jamie de sete. Mas o que poderia ser uma família tentando ser feliz não chegava nem perto, e nem tinha a ver com a guerra.
   A mãe deles, que não tem nome, apenas é chamada pelos filhos de “a Mãe”, é uma mulher cheia de remorsos e arrependimentos… inclusive de ter colocado dois filhos no mundo. Tão preocupada com o pensamento da sociedade da época, uma mulher deveria se casar e fazer todas as vontades de seu marido, inclusive lhe dar filhos, se ele assim o desejasse, e quantos ele quisesse também. Ela foi “obediente” e concedeu dois lindos filhos ao seu marido. Infelizmente ele não viveu o suficiente para que as crianças soubessem o que é um amor de pai… nem o de mãe, embora ela esteja viva e muito bem de saúde.

A guerra que salvou minha vida
Foto: Hanna Carolina/Mundinho da Hanna

   A começar por Ada, a Mãe morre de vergonha da garota, pois ela nasceu com uma deficiência no pé, o que na época chamam de “pé torto”. Apesar de a medicina estar relativamente avançada, ao ponto de saberem como operar um “pé torto” ainda em bebês recém-nascidos, o fato de Ada ter nascido assim fez com que o preconceito e ignorância da Mãe viessem a tona. Além de considerar uma vergonha imensa ter uma filha deficiente, não precisava ter cuidados com ela, afinal ela nem era digna de ter uma vida, já que seu pé era considerado nojento e ela deveria viver trancada para sempre. O máximo de convívio social que Ada tinha era quando colocava sua cadeira na janela, do segundo andar, e ela podia ver a rua… ao menos o pedaço onde sua vista alcançava pela janela onde estava.
   Ela mal podia andar dentro de casa e o pouco que fazia, tinha que ser escondido, já que por qualquer coisa, Ada era espancada e trancafiada num armário debaixo da pia na cozinha, úmido e cheio de baratas e ratos, por noites a fio. Jamie, apesar de perfeito fisicamente, tinha certas liberdades para brincar na rua, mas mal ia à escola, quase não tinha educação e escrevia muito mal. Também apanhava um bocado quando a Mãe chegava bêbada em casa, mas eles se achavam felizes, ao seu modo. Afinal, aquele era o modo de viver do qual eles nunca sairiam… até que a guerra começou.
   Várias crianças foram obrigadas a serem evacuadas de Londres, rumo ao interior, quando Hitler ameaçou invadir o país com seus exércitos. E as famílias não tiveram muita escolha, a não ser obedecer. Ada poderia ficar para trás, afinal ninguém ia querer cuidar de uma menina de “pé torto e feio”, mas ela não poderia suportar ficar longe de seu irmão… Contra a vontade da Mãe, eles foram, rumo a evacuação… E suas vidas mudaram por completo… talvez para um bem que não imaginavam que poderiam viver.
   Esse é um livro que vai te marcar eternamente. Ele se passa na Segunda Guerra Mundial, então já marca naturalmente, pelo tema em si. Mas também seremos marcados pela história de Ada, uma  sobrevivente da guerra, mas também da vida.
   Vítima do preconceito e ignorância da Mãe, a probrezinha acredita piamente em tudo, então sempre acha que é indigna, que todos tem nojo dela, que ela não pode nem sequer andar, pois seu pé é nojento demais até para isso. Ela acredita tanto, que se torna uma missão na vida de Susan, a moça que toma conta deles no interior.
   Para começo de conversa, Ada sempre soube que sua mãe não a amava. De um jeito bem explícito, a Mãe sempre dava mais carinho ao filho caçula, pois além de ser um menino, era o preferido por não ser deficiente. E essa rejeição deveria ser algo geral, já que ela “era indigna de tudo”. E pense em como a sensação ficou ainda mais evidente quando Susan anuncia que não queria as crianças, pois nunca pensou em ser mãe, só estava aceitando porque o governo a obrigava. Sua única âncora era seu irmão Jamie, o único que ela amava de verdade e se sentia amada por ele.
   Se tornou uma missão para Ada sobreviver à guerra e à distância da Mãe, que de certa forma era sua família. Se tornou uma missão para Jamie viver numa casa nova e grande. Se tornou uma missão para os dois tentar não se acostumar ao conforto que Susan oferecia e mais ainda, se acostumar a uma vida sem pancadas e espancamentos, que eles julgavam normal. E se tornou uma missão na vida de Susan saber que ela poderia ter instinto maternal, mesmo que nunca soubesse disso.

A guerra que salvou minha vida
Foto: Hanna Carolina/Mundinho da Hanna

   Susan era uma mulher a frente de seu tempo. Filha de um membro influente e rico da igreja, ela sempre teve tudo do bom e do melhor, inclusive estudos. Mas era de se esperar que ela acabasse se casando e tendo filhos, como “toda mulher direita”. Acontece que ela não ligava muito para casamentos, nem construir família. Ser mãe então, passava longe de seus planos e ela sempre foi independente. Seu pai, por isso, não a trata mal, mas a tem como a ovelha negra da família, solteirona e que morava com uma amiga, também solteirona. Não se dá a entender que elas teriam algum relacionamento além de amizade, mas o fato é que Susan sente muita falta de Becky, a amiga e dona do Manteiga, o pônei que vive em seu quintal.
   Quando chegaram em sua porta com duas crianças empurradas para ela, Susan se desespera, afinal o que seria dela cuidando de duas crianças, que nem dela eram? Sem ter como dizer “não”, ela se vê obrigada a tomar conta dos irmãos assustados… mas logo ela descobre que se importa mais com eles do que pensava.
   Vendo como eles chegaram, magros e sem mudas de roupa, ela começa a cuidar deles, pois era o mínimo que se podia fazer. Aos poucos, laços vão se criando e é muito lindo ver que Susan não apenas cuida deles com amor, como os defende como uma leoa.
   Ada é bem relutante, mas no fim ela acaba aceitando os conselhos de Susan e percebe que ela mesma era tão digna de ter seus direitos, quanto qualquer outra pessoa ali, sendo refugiada ou não. No fim, apesar da guerra ser ruim por separar e matar muita gente, tudo tem seu lado bom. E ela também pode salvar muitas vidas, como a dos irmãos Smith e a de Susan, que por coincidência ou não, também se chama Smith.

A guerra que salvou minha vida
Foto: Hanna Carolina/Mundinho da Hanna

   Toda a narrativa é contada pela visão de Ada e vemos o quanto essa menina é sofrida. Tinha horas que eu ficava muito zangada com ela, de tanto que ela rea arredia com a pobre da Susan, ficava o tempo todo repetindo que ia apanhar, que Susan não gostava dela e tal. Mas acho que se eu tivesse sido criada como ela também, acho que compartilharia tais pensamentos, afinal ela foi condicionada a vida inteira a isso. Mas fiquei muito feliz quando Ada se libertou, ela construiu laços de amizade, aprendeu coisas que nunca pensou ser possível e, bem ou mal, acabou aprendendo com a Susan a ser independente, mesmo que não percebesse isso.
   Além de toda reviravolta da na vida de Ada, descobrindo coisas que ela jamais achou ser capaz, temos outros dilemas. Apesar dela saber seu nome, nunca soube sua idade, nunca teve um aniversário, nem nunca soube que fim teve seu pai. São pedaços que sua mãe nunca lhe contou, por negligência mesmo, e que se tornam um mistério por boa parte do livro. Além disso, Jamie passa por processos dolorosos de adaptação, ainda mais com o sistema de educação da época, que até para Susan era arcaico.
   Confesso que me compadeci do garoto e, mesmo que considerem um spoiler, falarei. Jamie apanhava da palmatória e chegava em casa sempre com uma marca no braço, de ficar amarrado, pois o coitadinho era canhoto (como eu), coisa que as professoras londrinas abominavam, porque era “coisa do diabo” escrever com a mão esquerda. Susan fez o mesmo que eu teria feito se alguém falasse isso para mim, e fiquei orgulhosa de como ela defendeu o garotinho, que até então era indesejado em sua casa. Foi aí que começaram os laços afetivos entre eles, que formaram uma família inesperada, cada um com seus defeitos, mas perfeitos completando um ao outro.

A guerra que salvou minha vida
Foto: Hanna Carolina/Mundinho da Hanna

   Esse é um livro que vai te fazer chorar, rir, ficar curiosx, na expectativa de muita coisa. Pois além do desafio que os irmãos Smith tem de se adaptar a uma nova vida, existe uma guerra lá fora, chegando cada vez mais perto deles. Já na capa, a autora nos conta que Ada teve a chance que Anne Frank não teve. Então já se pode imaginar o tanto de emoção que te espera.
   O livro tem capítulos bem curtinhos, bem rápidos, e de linguagem bem fluida, apesar do tema tratado. A edição então, nem se fala. Esse é o primeiro livro da Darkside que chegou na minha estante. Sou apaixonada por ela, com tantos detalhes no início dos capítulos, sempre enfeitados com botões. Esses detalhe é explicado no decorrer do livro, e tudo começa a fazer sentido, além da arte da capa, que mostra uma menina bem vestidinha, observando uma área de vôo.

A guerra que salvou minha vida
Foto: Hanna Carolina/Mundinho da Hanna

    Isso é porque Ada e Jamie vão parar numa casa, cujo quintal é vizinho a uma base aérea do exército inglês. Enquanto Jamie se apaixona e começa a conhecer cada tipo de aeronave apenas pelo som, Ada se apaixona pelo pônei Manteiga, que está meio que largado no pasto desde que sua dona faleceu.   Aos poucos, vemos o amor que cada irmão desenvolve por suas formas de escape da guerra. Como a história é narrada pela Ada, o amor dela pelo Manteiga é melhor detalhado, o qual vai ganhando força, conforme algo que ela fazia escondido se torna conhecido de Susan. Aos poucos a menina que mal andava, aprende a lidar com um cavalo, a cavalgar e até a saltar com ele. É muito lindo ver esse laço também ser construído, o que acho que continua na sequência do livro, ‘A guerra que me ensinou a viver’, o qual devo dizer que estou ansiosa para conferir e saber como termina a história da família improvável Smith.

A guerra que salvou minha vida
Foto: Hanna Carolina/Mundinho da Hanna

   Nunca tinha lido nada da autora, mas amei cada detalhe desse livro, super recomendo e dou a nota máxima.

Para quem não conhece a autora:

Kimberly Brubaker Bradley
Foto: Divulgação

Kimberly Brubaker Bradley vive com o marido e os filhos em uma fazenda no sopé das Montanhas Apalaches, entre pôneis, cães, gatos, ovelhas, cabras, e muitas, muitas árvores. É autora de vários livros, entre eles Leap of Faith e Jefferson’s Sons. A Guerra que Salvou a Minha Vida ganhou o Newbery Honor Book, o Schneider Family Book Award e o Josette Frank Award, além de ter sido eleito entre os melhores livros de 2015 pelo Wall Street Journal, a revista Publishers Weekly, a New York Public Library e a Chicago Public Library, entre outros. 

    Esse livro também faz parte do projeto #leiamulheres, em parceria com as meninas do MãeLiteratura e Pacote Literário.

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   Já tinham lido esse livro? Conhecem a autora? Me contem aí! 😉

 

Postado por:

Hanna de Paiva

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