5 de maio de 2022

Garotas Resistem | Barbara Sá e cia

Olá meu povo, como estamos? Hoje temos resenha de mais um livro nacional por aqui, com uma pegada bem girl powerCom vocês, ‘Garotas Resistem’, das autoras Barbara Sá, Camila Pelegrini, Giulia Cavalcanti e Raffa Fustagno.

Garotas Resistem
Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

23/24

Livro: Garotas Resistem

Autoras: Barbara Sá, Camila Pelegrini, Giulia Cavalcanti e Raffa Fustagno

Editora: Se Liga Editorial 

Ano: 2021

Páginas: 180

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Apesar de carregar o nome de uma das escritoras mais famosas de todos os tempos, o colégio Clarice Lispector é o reflexo de uma sociedade machista que favorece os homens em todas as oportunidades. Com um diretor ultrapassado e misógino, as estudantes da instituição precisarão lutar por igualdade e respeito para simplesmente poderem ser quem são. Em outros tempos, talvez, essas discrepâncias passassem despercebidas, porém não mais. Felizmente, Mariane, Núbia, Maju e Luísa estão prontas para resistir!

O colégio Clarice Lispector é uma das instituições de ensino mais caras do Rio de Janeiro. A mensalidades são altas e os alunos recebem tudo do bom e do melhor, ao menos é o que prometem aos pais.  Mas quando olhamos pelo ângulo dos alunos, ou melhor, das alunas, a coisa muda um pouco de figura.   

Quatro contos diferentes, com a visão de quatro alunas distintas nos são apresentados. Porém, o cenário é o mesmo: mulheres tentando sobreviver ao cenário extremamente machista e autoritário que o diretor Andrade impõe aos estudantes.    

Aqui, conhecemos a história de quatro moças que lutam por um mundo melhor, a começar dos muros da escola. Tinha tempo que ‘Garotas Resistem’ estava no meu radar, mas sempre deixava para depois, diante de tantas leituras que estava fazendo ano passado. 

Só agora, quando a Raffa anunciou que o livro estaria gratuito por um dia, aproveitei e tratei de matar minha curiosidade. Estava com altas expectativas em relação a ele, especialmente por conhecer as autoras, vindas das antologias ‘FemmeFatale’ e ‘Era Uma Vez… Vilãs’ (aliás, tive que adiar o projeto de ler os contos em ordem, pois todos os novos saíram do catálogo do Kindle Unlimited).

E, devo dizer que todas as expectativas foram alcançadas, pois terminei com os olhos marejados.   O livro foi organizado em ordem alfabética do nome das autoras. Então, o primeiro conto é o da Barbara Sá, que traz o relato de Mariane e sua busca pela justiça contra o diretor Andrade, para ter o mesmo direito que os meninos de jogar vôlei e competir nos jogos intercolegiais.   

Com uma narrativa em primeira pessoa, estive lado a lado na luta da mocinha, que tinha mais duas amigas e fiéis escudeiras, por sinal. A escrita da autora é muito gostosinha de ler e não foi difícil me ver imersa na trama.   

Aliás, me lembrou a minha época de escola, quando tivemos times de vôlei e até competimos. Não lembro se chegamos a vencer o campeonato, mas foi nostálgico lembrar dos treinos das meninas e ver cada vitória delas.  

 Mas ao contrário do conto, tivemos uma diretora bem aberta à conversa e que investia nos times, tanto masculino, quanto feminino. O que não acontece em ‘Garotas Resistem’, por sinal. Me deu uma raiva muito grande ver como o retrógrado do diretor Andrade tratava as personagens femininas.    

Era nítido o ódio dele por mulheres e o quanto fazia questão de humilhar todas a cada oportunidade. Em especial quando se tratava dos treinos das meninas. Mariane não queria sair da escola e deixar o Clarice Lispector reverberando o clima tóxico que o diretor tanto alimentava.    

E conseguiu uma maneira bem tecnológica para resolver isso, por sinal. Quando várias colegas se juntam no movimento e ganham o apoio das mães, é impossível não querer se juntar a elas e levantar os cartazes.

“Colocar a gente como vilãs quando tudo o que queremos é usar um short para treinar ou uma camiseta que não tenha manga, é o mesmo que dizer que uma mulher vítima de crime sexual é a culpada por estar usando um short jeans ou biquíni na praia.”
 

O segundo conto (da Camila Pelegrini) traz uma realidade comum em muitas escolas de elite, a dos bolsistas. Também narrado em primeira pessoa, conhecemos Núbia, uma menina de origem humilde, mas muito inteligente, que está em seu primeiro ano como bolsista de 100% no colégio.   

Filha de um operário e uma faxineira, ela sabe desde cedo que a vida não é fácil. A mãe se equilibra entre a limpeza de várias casas e o pai vive correndo para não tomar uma bronca do patrão. O salário mal dá para passar o mês, mas eles são muito amorosos e orgulhosos de verem que a filha poderia estudar numa escola que nem em sonho eles poderiam pagar.   

Núbia não quer decepcionar os pais, mas vendo as coisas pelo lado dela, não é nada fácil se adaptar num ambiente onde te olham torto por não ter a conta bancária do mesmo tamanho. Confesso que já passei por situações desse tipo e me senti na pele dela diversas vezes, então minha vontade era de dar um abraço bem apertado na mocinha e dizer que ia ficar tudo bem.

“[…] Sei também como as pessoas podem tentar te convencer a respeito de qual é o seu lugar, qual é o seu papel. […] Ia dizer que o mais importante nesse caso é não deixar que te convençam disso que elas pensam.”

Além disso, a relação dela com a mãe é uma das mais lindas e emocionantes que já vi na literatura.    Foi impossível não me lembrar da minha mãe quando eu tinha a idade da Núbia e o cuidado que ela tinha por minha vida escolar. 

Foram cenas que fiquei com os olhos marejados em diversos momentos e só queria abraçar minha mãe e agradecer por tudo o que fez por mim.  A situação fica mais complicada para Núbia na escola quando ela ouve um papo sobre o filme ‘Vingadores – O Ultimato’, e um dos rapazes de sua turma faz o infeliz comentário de que “meninas são sabem nada do universo nerd, então não devem se meter em conversa de homens”.    

A situação toma uma proporção tão grande, que vira até aposta no colégio, na qual Núbia não se achava digna de se meter. Porém, vai mostrar que lugar de garotas é onde quiserem, com quem e como quiserem.   

O conto da Giulia Cavalcanti é o único narrado em terceira pessoa. Ele traz Maju, uma aluna que se revolta com mais uma opinião retrógrada do diretor Andrade, que defende que “futebol não é esporte para mulheres” e impede as meninas de formarem um time. Não bastasse isso, elas encaram dezenas de cenas nojentas e ridículas, infelizmente tão comuns na vida das mulheres, mas que passam despercebidas, como uma coisa normal.   

Maju e Giovana (a amiga de Mariane no primeiro conto e que retorna aqui) vão mostrar que tanto o diretor quanto os outros rapazes estão errados, também de uma maneira bem tecnológica e surpreendente, que foi de longe, a mais espetacular. 

Por fim, a Raffa Fustagno traz Luísa, uma grande fã da cantora e xará Luísa Sonza, porém que sofre preconceito por seu gosto musical. Aqui, vemos não apenas seu pai lhe cortando as asas, como os colegas da escola e, mesmo outras mulheres, que reproduzem o comportamento machista.

“Por que toda mulher que reproduz machismo tem que se autodefender com ‘minha opinião’?”
 

  De todos, o texto da última autora foi o que mais gostei, e até me arrancou lágrimas no final. Foi a minha protagonista favorita, tanto pelo gosto em comum das roupas, quanto pelo musical. Torci, vibrei e me emocionei vendo seu final feliz e ensinando diversas lições, as quais deixarão mais uma marca no Clarice Lispector.   

Aqui, como a ideia é trazer uma mensagem boa e de “final feliz”, todos os contos terminam bem. Mas também nos fazem refletir sobre tantas cenas totalmente “close errado” que víamos em filmes e seriados dos anos 1980-90, e ainda era passado como algo engraçado, em filmes de comédia romântica adolescente.

“A felicidade está nas sutilezas. Cada pedacinho do ‘para sempre’ também.”
 

Comentários e atitudes machistas que reverberam até os dias de hoje, passados como se fosse normal ofender e humilhar as mulheres, por serem quem são: mulheres. ‘Garotas Resistem’ é uma leitura mais do que necessária, seja você homem ou mulher.    

Todos precisam ler esse livro para ter uma noção do que é passar por uma situação dessas e refletir qual marca queremos deixar no mundo. Falando sobre o livro em si, adorei a capa, que traz as quatro protagonistas abraçadas e de costas.

A fonte que tem o título é chamativa na medida certa e está toda em tons de rosa muito lindos. A revisão e a diagramação estão incríveis. Aliás, essa foi minha primeira experiência lendo os livros da Se Liga Editorial, que pertence à Tathy Machado, uma autora também carioca e presente em vários eventos literários, especialmente quando se trata de representatividade. Gostei bastante da obra e já quero ler mais títulos da editora.

“Uma garota deve ser duas coisas: quem e o que ela quiser.” 

Já conhecem as obras das autoras? E esse livro, já leram? Me contem aí! 

Obs.: Texto revisado por Emerson Silva

Postado por:

Hanna de Paiva

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