27 de julho de 2023

Meu Livro de Cabeceira | Raffa Fustagno e Cia.

Olá meu povo, como estamos? Hoje eu trago a resenha de ‘Meu Livro de Cabeceira’, uma obra nacional e que é uma verdadeira declaração de amor aos amantes de literatura.

 

Meu Livro de Cabeceira | Raffa Fustagno e Cia.
Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

 

 

36/60 
Livro: Meu Livro de Cabeceira
Autoras: Raffa Fustagno, Marina Mafra e Desire Oliveira
Editora: Leya
Ano: 2022
Páginas: 304
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Neste livro, três jovens escritoras – e leitoras – contam histórias para quem não resiste a cheiro de livro, ama uma estante lotada e conhece o poder de uma boa leitura.

 

Em “A Hora da Estela”, Raffa Fustagno apresenta Manuela, uma menina que precisa ler, para a escola, um livro de Clarice Lispector. Ao procurar um exemplar num sebo do bairro, ela encontra muito mais: entre lombadas coloridas e palavras repletas de sensações e sentimentos, parece existir ali um portal muito real para um mundo onde a conexão com as pessoas ao seu redor pode ser ainda mais profunda e duradoura.

 

Já em “Uma história por correspondência”, de Marina Mafra, conhecemos a veterinária Georgina, que, após uma desilusão amorosa, recebe um envelope verde. Lá dentro, numa carta assinada por um misterioso sr. F., ela se depara com a história mágica de uma pessoa comum – e logo se vê ansiando pelos próximos capítulos. Spoiler: na vida não existem spoilers.

 

Por último, mas num texto tão fascinante quanto os anteriores, Desire Oliveira mostra, em “O amor e o tempo”, três gerações de mulheres unidas por um antigo livro – que, no entanto, aparenta narrar uma trama diferente para cada uma delas. Estranho? Nem tanto: toda pessoa é também autora daquilo que lê. As melhores histórias, por mais distantes no tempo e no espaço que possam estar, são sempre sobre você. Pois vida e leitura são uma via de mão dupla: livros transformam vidas, vidas se transformam em livros. Palavras geram sentido que geram emoções que geram palavras – e impulsionam existências.

 Meu livro de cabeceira é todo seu!

 

Meu Livro de Cabeceira | Raffa Fustagno e Cia.

 

‘Meu Livro de Cabeceira’ mostra as diferentes realidades que as pessoas encaram e como a leitura pode entrar de formas inusitadas em nossas vidas. De uma maneira geral, é uma leitura leve e despretensiosa, mas que não deixa de ser carregada de mensagens profundas e marcantes. 
Cada conto é narrado por uma autora diferente. Das três, eu já conhecia a escrita da Raffa Fustagno (que leio até a lista de compras, se deixar, rs) e da Marina (pelo conto ‘Elas Merecem‘, que vale a pena conferir a resenha também). Assim, já sabia que seriam boas leituras, porém ainda tinha curiosidade com o trabalho da Desire. 
 O primeiro conto é escrito pela Raffa e também o mais longo. Aqui, conhecemos a história pelo ponto de vista de Manuela, uma jovem de 13 anos que precisa ler um clássico da literatura nacional para apresentar na escola. Embora seja uma ideia simples e até comum, dado que faz parte do cotidiano de muita gente, ninguém para muito para refletir sobre a realidade de estudantes que não têm acesso aos livros por n motivos. 
A protagonista estuda em uma escola de elite do Rio de Janeiro e tem os melhores professores. No entanto, sua realidade é bem diferente da de seus colegas de classe, dado que é uma menina negra e pobre que está lá como bolsista, por ser conhecida da diretora. Isso, por si só, é motivo de zombaria e preconceito por parte dos demais alunos, o que faz a menina se tornar mais isolada e ciente de que não se encaixa em nada
daquilo. 
Seu único momento de paz é quando vai até a biblioteca, local seguro e que abriga os livros que ela tanto ama e lê tantas vezes quanto for possível. Sua situação se complica um pouco quando o professor de literatura passa um trabalho no qual ela deveria ler ‘A Hora da Estrela’, de Clarice Lispector, que infelizmente não tem disponível para empréstimo no momento. 
A saída é procurar o exemplar em um sebo, local que a mocinha já tinha ouvido falar, mas que nunca tinha ido. Ao chegar lá, no entanto, ela descobre que existe bem mais que apenas livros velhos para vender. 

 

Meu Livro de Cabeceira | Raffa Fustagno e Cia.
Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Manuela é uma menina inteligente, esforçada e sempre faz de tudo para manter as notas altas. Contudo, parte disso é devido ao esforço de sua mãe, com quem mora.
É muito bonito ver a relação das duas e o quanto elas representam a realidade de muitas famílias brasileiras. A mais velha é batalhadora e não teve muitas chances na vida. Então, quer que a filha tenha todas as oportunidades possíveis que aparecem.

 

“[…] Sempre ouvi muito na escola sobre ler um livro que nos desperta, e eu que sempre li tanto achava que já estava acordada para os novos mundos até me sentir imensamente incomodada pelas palavras de Clarice e, ao mesmo tempo, me reconhecer nelas.”

 

 

Junto a D. Carmen – madrinha de Manu –, elas mostram que são mulheres fortes, cada uma ao seu modo e que, unidas, podem conquistar qualquer coisa. No entanto, apesar de achar bem legal a preocupação delas com a menina, eu achei que era exagerada em determinados momentos, ainda mais porque sufocavam Manuela de uma forma que a coitada quase não tinha tempo para respirar de tantas atividades que precisava fazer. 
Mas ela acaba tirando de letra e mostra que os livros podem ser um ótimo refúgio, mesmo quando é para um trabalho da escola. Achei muito nostálgico ver seu comportamento e a forma carinhosa pela qual tratava seus novos amigos de papel e tinta, além da maneira como falava deles para as pessoas, envolvendo todos e cativando para que também se tornassem leitores. 
A relação dela com o dono do sebo é um show a parte. Seu Lino é um velho turrão e não gosta muito de crianças/adolescentes, que só vão lá no sebo, olham e nunca compram nada, por ser “tudo velho”. Então, a presença de Manuela soa como mais uma afronta em sua vida. 
Aos poucos, esses dois vão se entendendo e é muito linda a amizade que os personagens criam ao longo das páginas. Depois que entendi os motivos de ele agir como age para proteger seu negócio, minha vontade era de colocar o senhorzinho num potinho, pois vi o grande coração que se escondia por trás de livros empoeirados e prateleiras antigas.

 

“[…] E ver as pessoas mais importantes da minha vida reunidas, me ouvindo falar de livros, é como viver um sonho. Na verdade, sei que estou começando a realizar parte dele.”

 

 

O final, assim como toda a história, é doce, cativante e traz uma emoção para qualquer pessoa, seja amante de livros ou não. Minha relação com ela foi tão forte que foi onde mais marquei quotes (rsrsrs). 
De alguma forma, acabei vendo a minha própria história ali representada, dado que minha mãe também é do Nordeste e veio tentar a vida aqui na “cidade grande’ desejando dar um futuro digno para a filha (eu). Talvez por isso tenha me identificado mais com o primeiro conto e vá guardar ele no coração com todo carinho do mundo. 
 
 

 

Meu Livro de Cabeceira | Raffa Fustagno e Cia.
Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna



O segundo conto traz a história de Georgina, uma estudante de Veterinária que tem um sonho de salvar todos os animais do mundo. Com muito planejamento e estratégia, a moça acaba conseguindo arrumar tudo em sua vida, menos a parte amorosa. 
Ao menos é o que ela pensa, até que começa a receber umas cartas inusitadas. No começo, pensa fazer parte de uma coluna da revista que ela edita. Mas as palavras escritas ali são tão cativantes que ela não resiste e se envolve com os envelopes verdes em sua mesa todo dia. 
Apesar de ser o único conto que não tenha livros como tema principal, eu gostei do desenvolvimento dele. A protagonista é uma mulher forte, decidida e bastante focada em sua ONG. Todo o seu esforço valeu a pena, dado que tem até reconhecimento internacional. Talvez por isso ela ignore um pouco as feridas em seu coração, que se tornam fantasmas e lhe atormentam toda vez que ela para. 

Receber as cartas de uma pessoa desconhecida, no entanto, lhe deixa, ao mesmo tempo, confusa e curiosa. Sr. F é um rapaz que parece ter várias coisas em comum com a moça, além de paixão por cachorros. Assim, ele começa a tomar um espaço que Georgina jamais pensou ser possível em seu coração. 
O desfecho é bonitinho e condizente com a trama. Contudo, foi o conto que menos gostei. Talvez por ter menos páginas, a autora não desenvolveu mais os personagens como eu esperava. Alguns participantes importantes ficaram para trás sem muita explicação e eu tive a sensação de pontas soltas, o que me decepcionou um pouco. 
O final é aberto, o que não seria um problema, se as coisas não tivessem acontecido de forma tão apressada. Por mais que tivesse achado a proposta interessante, queria que tivesse um mistério um pouco maior em relação à identidade do Sr. F., além de mais desconfiança por parte de Georgina, que para uma mulher tão esperta e forte, encarou as coisas fácil demais e não me convenceu muito. 
 O último conto traz três gerações de mulheres lendo o mesmo romance. Assim, acompanhamos a trajetória de Amélia (avó), Marcela (mãe) e Cleo (filha). Apesar de carregarem o mesmo sobrenome, elas carregam experiências de épocas diferentes, o que tem tudo a ver com a visão sobre uma obra que atravessou tantas décadas. 
O que antes poderia ser visto como uma grande prova de honra e amor, hoje deixa de ser e vice-versa. É interessante ver as três conversando como se fosse um clube do livro só para as mulheres da família.

 

“[…] Era curioso como uma história podia mexer de forma tão diferente com as pessoas. Mãe, filha e neta, mulheres tão próximas, mas com visões de mundo tão distintas.”

 

Dessa forma, vemos o quanto o gosto pela leitura pode (e deve) ser perpetuado entre nossos entes queridos. Não só por questão de deixar um legado, mas gostei de ver como cada uma tinha um gosto distinto e a visão que tem da leitura é influenciada pelos seus momentos da própria vida. 
Isso é observado especialmente pelo ângulo de Marcela e Amélia, duas mulheres que tiveram casamentos longos e passaram por altos e baixos. Como elas lidam com isso se reflete em casa e vemos como elas descontam (ou se apoiam) na literatura. 
 
 
 
Meu Livro de Cabeceira | Raffa Fustagno e Cia.
Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

 
No entanto, apesar de ter gostado dessa parte, não gostei muito do desfecho. Apesar de ter sido condizente com o que vinha sendo apresentado, tive a sensação de que terminou de maneira muito abrupta e senti falta de mais umas pontas amarradas. 

Contudo, mesmo que tenha algumas ressalvas, os três contos retratam muito bem realidades de pessoas (e leitores) reais, que tem seus dilemas e lidam da forma que melhor acham na hora. 
Falando sobre o livro em si, li em versão física e posso dizer que a edição está muito fofa. A capa é em tons vivos de laranja e traz as três protagonistas, cada uma segurando o elemento chave do respectivo conto. Além disso, a diagramação e revisão estão de parabéns, impressos em páginas grossinhas e amareladas, do jeito que amo. 
Sendo assim, ‘Meu Livro de Cabeceira’ é uma leitura leve, despretensiosa, mas que promete algumas emoções no percurso. Recomendo que leiam e se rendam ao amor pelos livros dos personagens.

 

 

E aí, já leram esse livro ou algum outro das autoras? Me contem nos comentários.

Texto revisado por Emerson Silva 

Postado por:

Hanna de Paiva

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