9 de fevereiro de 2023

O Destino de Irene | Tamyris Torres

 Olá meu povo, como estamos? Hoje temos resenha de um livro que me tirou dos trilhos. Estou falando de ‘O Destino de Irene’, da autora nacional Tamyris Torres.

 

O Destino de Irene | Tamyris Torres
Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

 

ALERTA: Pode conter gatilhos de distúrbios alimentares

Obs.: Livro lido em parceria com a autora (publicidade)

6/60 
Livro: O Destino de Irene
Autora: Tamyris Torres
Editora: Independente/Amazon (ebook) e impresso pela Sarvier
Páginas: 152
Ano: 2022
Skoob | Compre na Amazon 

 

Irene era um refúgio de mentiras, uma mulher que fugiu da sua própria vida. Ela sentiu que o controle do seu destino estava em outras mãos. Quando decidiu cursar Medicina, se envolveu com transtornos psíquicos como a compulsão alimentar e bulimia. Com o passar dos anos, percebeu que seu corpo não era mais o mesmo, tampouco a sua mente. Ela fará uma viagem no tempo para alcançar o momento onde tudo começou e buscará a sua própria redenção.

 

O Destino de Irene | Tamyris Torres

 

 

Irene é fruto de uma relação que começou cheia de sonhos, porém se tornaram frustrações. Crescendo em um lar disfuncional e quebrado da alta sociedade carioca dos anos 1980/90, a moça é constantemente podada por pais que acreditam estar criando uma vencedora e nada mais importa.
Assim, ela é doutrinada por comportamentos preconceituosos e extremamente machistas, além de ser forçada a seguir o legado da família sem discussão. Contudo, ao longo dos anos, a jovem vai aprendendo que o conceito de família e amor pode ser maior e mais bonito do que ela pensou. Embora também seja capaz de machucar profundamente, se não tomar cuidado. 

 

 

“Ela comia suas emoções e as expelia tão rapidamente quanto as permitia sentir.”

 

  ‘O Destino de Irene’ é um livro que me tirou dos trilhos. Acho que essa seria a definição perfeita. Para começar, não é o tipo de romance que eu costumo ler, por trazer uma trama bastante carregada de emoções e cenas de revirar o estômago. Mas resolvi tentar a sorte, por ser uma obra curtinha.

A narrativa é em terceira pessoa e mostra os acontecimentos pelo ângulo de Irene na maior parte do tempo. Porém, alterna com um vislumbre das situações que levaram às atitudes de seus pais no passado.
Por sua vez, a vibe dos anos 1980/90 é nostálgica, trazendo de volta alguns itens peculiares, como os walkmans, fitas cassete e discos de vinil. No entanto, também traz à tona certos comportamentos ruins que eram moda entre a sociedade da elite (alguns dos quais se mantém até os dias atuais, sendo passados de geração em geração, infelizmente). Dessa forma, vemos uma família toda pautada pelas aparências de um lar saudável e feliz, quando dentro de casa é o completo oposto.
A protagonista foi criada em um lar doente desde o início. Seus pais, Ícaro e Valquíria, fazem questão de deixar claro o quanto a filha mais velha é “a única culpada” pela realização do casamento, pois nunca foi uma filha desejada
A solução para consertar o inconveniente foi apontada pelo avô materno de Irene, a qual seria a única forma digna de manter a honra da família. Deste modo, a menina é tratada como um ser de outro planeta em sua
própria casa, cuja existência é apenas aceita, ou ao menos é assim que ela se sente.
Com a vinda dos irmãos mais novos (Caio e Camila), a situação se torna ainda pior. Os três são educados e doutrinados para seguirem o legado da família e induzidos a sempre competirem entre si.  Então, eles devem agir como se fossem concorrentes para ver quem será o adulto mais bem sucedido, especialmente no que diz respeito à carreira profissional.
 
 
 
O Destino de Irene | Tamyris Torres
Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

 

 
 
 
Filhos de dois médicos bem sucedidos, é esperado que também sigam o exemplo e tenham o mesmo modo de vida, a fim de cuidar do império hospitalar Santo Agostinho. A simples menção a uma faculdade diferente é motivo para castigo e desavenças na mesa de jantar.

 

“Na vida, as coisas são assim, um dia estamos bem, outro dia, uma nuvem cinzenta parece que paira sobre nossas cabeças e tudo começa a desandar…”

 

 

Sem ter muito como fugir, Irene e seus irmãos se formam com louvor na UFRJ e seguem toda a “lista da felicidade” da vida adulta. No entanto, a protagonista carrega todo o peso indesejado de ser um exemplo constante para os mais jovens. Mesmo contra sua vontade, é uma ótima médica e merecedora de muitos prêmios e artigos científicos reconhecidos em revistas de alto impacto.
Mas nada disso importa se estiver acima do peso, solteira ou sem filhos. A pressão vinda por parte de sua mãe é constante e invasiva, que leva a situações constrangedoras e desnecessárias, forçando Irene a se encaixar em um padrão impossível de alcançar. 
Lendo os fatos pelo ponto de vista da protagonista, é palpável a dor que ela sente, sobretudo por nunca ser ouvida onde mais precisava.
Esse comportamento exagerado e obsessivo de Valquíria em busca de uma beleza inalcançável leva a filha mais velha a extremos que, infelizmente, ainda existem e precisam ser cuidados com delicadeza e respeito. Porém, não é todo mundo que sabe lidar com eles, mesmo que tenha uma formação adequada.
Isso é observado nas consultas que seus pais arranjam para Irene com terapeutas que só enxergavam cifrões no fim do mês e é só receitar um remedinho que passa. Ninguém parecia entender as dores da moça, a qual entrava cada vez mais em um casulo de incompreensão e solidão. Assim, é impossível não absorver
uma parte desses sentimentos, além de me sentir revoltada e cansada.
 
 

 

O Destino de Irene | Tamyris Torres
Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

 

 
 
Minha vontade era abraçar a protagonista, dizer que era acolhida por mim, pois eu a entendia, e mandar todo mundo às favas. O único psicólogo com quem a protagonista tem alguma relação decente é com Miguel, que realmente nasceu para a profissão que cumpre. 
Porém, Irene está tão cansada e desacreditada que é uma “paciente rebelde”. E, sinceramente, não a julgo. Talvez se eu tivesse crescido em um lar disfuncional como o dela e fosse doutrinada a agir como um robô obediente, teria a mesma reação.

 

“Busco uma verdade que nem sei se existe.”

 

 

E é por esse motivo que Irene me ganhou. Ela é uma boa pessoa, porém perdida em sentimentos e dores com os quais nunca foi incentivada a tentar entender. 
Era muito mais fácil ignorar e seguir a vida sorrindo por fora e com várias facas no coração por dentro. Afinal, ninguém tem tempo para ficar ouvindo o desabafo das pessoas, de maneira especial se for sobre um assunto que elas mesmas sentem e também nunca se entenderam.
Perceber isso me levou a diversos questionamentos que eu mesma me fiz quando comecei a fazer tratamento psicológico. Sobre como a sociedade anda tão doente e prefere colocar uma venda e fingir que está tudo bem, quando nunca esteve.
O sentimento fica mais latente quando vi as partes do passado de Ícaro e Valquíria. Vendo como as coisas aconteceram anos atrás, também não consegui julgar eles. 
Os dois apenas repetem as atitudes de seus próprios pais e descontam suas frustrações nos filhos. O que é compreensível de certa forma, embora também seja bem triste, pois perderam a chance de fazer diferente e ensinar uma visão de mundo melhor para as crianças.

 

“Tenho medo de pessoas que acham que a verdade é absoluta.”

 

 

Mesmo com menos de 200 páginas, não foi uma leitura fácil e precisei alternar com outros livros para seguir com a minha sanidade mental em dia. No entanto, eu gostei de ver que são personagens muito reais, os quais poderiam ser nossos próprios parentes. 
Além disso, a autora não economiza nas críticas sociais daquela época, mas que podem muito bem se encaixarem na atual. Fora que dá muitos tapas com luva de pelica na cara do leitor, de forma que precisei parar para respirar diversas vezes.
Ainda, mesmo com tantas coisas ruins, o livro mostra que é possível enxergar girassóis amarelos numa zona devastada. Não apenas Irene, mas todos os personagens secundários tem suas chances de se redimirem e aprender com seus próprios erros. Embora seja um tanto tarde para recomeçar alguns laços que deveriam ter sido formados na infância, é palpável que um dia precisamos encarar nossos arrependimentos.
 Desse modo, gostei de acompanhar a jornada de amadurecimento de todo o elenco, em busca de um momento de paz e tranquilidade, nem que sejam por alguns minutos. O desfecho, assim como toda a trama, não é feliz. 
Contudo, é um livro necessário em tempos que aponta tanto sobre saúde mental e autocuidado. Além disso, traz uma ponta de esperança para quem acha que o mundo está perdido.
Falando sobre o livro em si, eu li em versão digital. Então, posso falar que está bem diagramado e tem uma revisão legal. Gostei também do estilo diferente de narrativa da autora, mais jornalística do que literária. Isso ajudou na fluidez da leitura.
 
 

 

O Destino de Irene | Tamyris Torres
Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

 

 
 
 
Minhas únicas ressalvas são por conta dos capítulos longos, os quais poderiam ter sido divididos em dois ou três, sem afetar o andamento da trama. Além disso, não curti muito a parte dos diálogos, que não tem travessão e nem uma separação certinha. Demorei para entender que eram frases dos personagens e não a narrativa da autora, o que me incomodou um pouco. 
Também achei o prólogo do livro interessante. Porém, pela forma como foi escrito, caberia muito mais em um prefácio, já que apresenta o enredo do livro em si, com palavras da autora, e não uma prévia da história propriamente dita. Por conta disso, não leva a nota máxima, mas ainda assim é um livro necessário e que recomendo de olhos fechados. Acho que todo leitor vai se identificar ao menos com uma parte dessa história e se comover.

 

 Já tinham lido algum livro assim? Me contem aí!
 
 Texto revisado por Emerson Silva 
Postado por:

Hanna de Paiva

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