17 de March de 2020

O oceano no fim do caminho | Neil Gaiman

  Olá meu povo, como estamos? Hoje temos resenha de um livro que foi escolhido pelo pessoal do nosso insta. E foi também uma experiência bem diferente, já que foi meu primeiro contato com os livros do autor. Estou falando de ‘O oceano no fim do caminho’, de Neil Gaiman.

O oceano no fim do caminho
Foto: Hanna Carolina/Mundinho da Hanna

7/12 

Livro: O oceano no fim do caminho

Autor: Neil Gaiman

Editora: Intrínseca

Páginas: 208

Ano: 2013

Skoob | Amazon



Foi há quarenta anos, agora ele lembra muito bem. Quando os tempos ficaram difíceis e os pais decidiram que o quarto do alto da escada, que antes era dele, passaria a receber hóspedes. Ele só tinha sete anos.Um dos inquilinos foi o minerador de opala. O homem que certa noite roubou o carro da família e, ali dentro, parado num caminho deserto, cometeu suicídio. O homem cujo ato desesperado despertou forças que jamais deveriam ter sido perturbadas. Forças que não são deste mundo. Um horror primordial, sem controle, que foi libertado e passou a tomar os sonhos e a realidade das pessoas, inclusive os do menino.Ele sabia que os adultos não conseguiriam — e não deveriam — compreender os eventos que se desdobravam tão perto de casa. Sua família, ingenuamente envolvida e usada na batalha, estava em perigo, e somente o menino era capaz de perceber isso. A responsabilidade inescapável de defender seus entes queridos fez com que ele recorresse à única salvação possível: as três mulheres que moravam no fim do caminho. O lugar onde ele viu seu primeiro oceano.

O oceano no fim do caminho

    Estamos na Inglaterra. Ano? Não se sabe… Só sabemos que estamos no século XX, e que nosso protagonista ora é um garotinho, ora é um adulto anda perdido. Isso mesmo…
    Ele tem nome, mas prefere ficar no anonimato, enquanto nos conta sua história para lá de louca. Só sabemos que é um adulto cujo passado deixou esquecido por um motivo desconhecido, até que ele encontra de novo o oceano onde tudo começou… e, ao passo que se lembra das coisas, aproveita para nos contar, antes que esqueça novamente.
   Nosso garotinho cresceu numa fazenda, ao lado de seus pais e irmã caçula. Logo no começo do livro, percebemos que é um menino meio solitário, já que não tem amiguinhos na escola e sua irmã não lhe dá muita bola. Mesmo assim, ele não se deixa abalar e se enfia em seu mundinho de quadrinhos, livros e músicas favoritas. Sua vida era boa, apesar de tudo, até que umas coisas mega estranhas começaram a acontecer…

“Gostei disso. Livros eram mais confiáveis que pessoas, de qualquer forma.”

   O mundinho dele incluía seu quarto, que ele tinha orgulho de dizer que tinha uma pia amarela feita sob medida para ele, aos seus 8 anos de idade. Mas seu mundinho perfeito deixa de ser assim no momento em que seus pais anunciam que ele vai perder o quarto, pois a família está passando dificuldades, e precisarão alugar o quarto para pagar algumas contas. Mesmo sem gostar da ideia, ele é apenas uma criança, e se vê obrigado a obedecer seus pais. Afinal, essa seria a oportunidade de conhecer pessoas novas, mas essas pessoas novas vão causar um verdadeiro rebuliço na vida dele.
   A começar, a família recebe um cidadão corpulento, muito estranho, que supostamente ganhou uma graninha como minerador de opalas. Para presentear a família que lhe cedeu o quarto, ele presenteia cada membro com uma opala, que ele se orgulha de ter cavado.
   Mas junto com essa opala chegaram muitas situações constrangedoras, que apenas o garotinho percebe. A família só dá certa atenção quando o carro deles é roubado e, quando o encontraram, o tal minerador estava morto dentro.
   De acordo com a polícia, o minerador teria roubado o carro e cometera suicídio por que estava atolado em dívidas por causa das opalas. Mas na real… O minerador era humano? E sua morte abriu caminho para o que nosso garotinho viria a chamar de amigos… e inimigos também.
   Enquanto seu pai procura saber as burocracias que deve fazer para correr atrás do prejuízo decorrente do roubo, nosso garotinho acaba indo parar numa fazenda vizinha, onde seu pai o deixa ficar, para não encarar o cadáver dentro do carro. A fazenda pertence à família Hempstock, composta por três mulheres (ou duas e meia, já que uma era uma garota de 11 anos…).
  Lettie, Ginnie e a idosa conhecida apenas como “velha senhora Hempstock” recebem o garotinho de braços abertos, e parecem saber todos os detalhes da cena do crime, mesmo que a polícia não tenha investigado nem a metade! Isso já chama a atenção do menino e também nossa, pois elas sabem muito mais do mundo do eu podia imaginar!

“Ela sorriu para mim, um sorriso radiante e aliviado, e eu torcia para que o que acabara de dizer fosse verdade.”

   Sejam bem vindos ao mundo estranho de Neil Gaiman! Eu nunca tinha lido nada do autor, até que o povo do nosso insta resolveu me desafiar (rsrsrs). Não sabia muito o que esperar dele, mas sabia que ficaria com medo em algum momento, pois, pelo que lia dele, me lembrava muito o tio King. Mas missão dada é missão cumprida! Se fiquei com medo? Fiquei em alguns momentos, mas também fiquei mega curiosa com os personagens.

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   Achei inusitado que nem nosso protagonista, nem sua própria família tenha nome. Em momento algum ele faz questão de dizer o nome de seus pais, irmã… nem o dele mesmo. Só quem tem nome aqui são nossos personagens que não pertencem à família, mas interagem com ela de alguma maneira.
   A começar pela família Hempstock. São apenas três mulheres na fazenda inteira. Aparentemente, uma filha de 11 anos, uma mãe de 35 e uma avó de 70. Mas… sabe aquele lance de “as aparências enganam”?

O oceano no fim do caminho
Foto: Hanna Carolina/Mundinho da Hanna

   Pois bem… só carinha aqui não quer dizer nada! Só nos primeiros parágrafos, já somos apresentados à sabedoria antiga da Lettie, a menina de 11 anos, mas que aprece saber muito do mundo. Sua avó então… diz que via coisas que humano algum devia ter visto, pois ainda não teríamos surgido no planeta para testemunhar certas cenas. Só aí já ficamos desconfiados de todos que cercam nosso garotinho. Isso porque podem ser duas coisas: ou as mulheres Hempstock são malucas e querem deixar o protagonista louco junto, ou elas são mais do que dizem ser. E eu aposto na segunda opção! 😉

“Eu adorava mitos. Não eram histórias para adultos e não eram histórias para crianças. Eram melhores que isso. Simplesmente eram.” 

   Aos poucos, ele vai descobrindo que neste mundo existem mais coisas entre o céu e a terra do que duvidam nossa vã filosofia. E também vai saber que, mesmo que não pareça, tudo está interligado. A morte suspeita do tal minerador de opala, o aparecimento das Hempstock, seu gatinho de estimação que tem umas cenas pra lá de marcantes, especialmente no final do livro… e por aí vai…

“As histórias para adultos nunca faziam sentido, e a ação nelas demorava muito a acontecer. Elas me davam a sensação de que havia segredos, segredos maçônicos, míticos, envolvendo a idade adulta. Por que os adultos não queriam ler sobre Nárnia, ilhas misteriosas, contrabandistas e fadas traiçoeiras?” 

   Depois da morte do minerador, sua família parece estar vivendo em um sonho, e nem percebe que um monte de coisa estranha está acontecendo. E nosso garotinho parece ter sido o único não afetado por isso, pois ele nota e tem medo.

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   As coisas que acontecem em sua casa e ao redor dela são um misto de fantasia com terror. As pessoas de repente parecem humanas, mas são um misto de fantasma com espíritos da floresta, que querem apenas “coisas boas”, querem brincar. Ao mesmo tempo, elas são simplesmente humanas, com defeitos e qualidades…
   O que deixa não apenas nosso garotinho confuso, como nos deixa também. Em vários momentos, as cenas de nosso protagonista beiram a loucura, e fiquei na dúvida várias vezes se era a descrição de um pesadelo ou o mundo real dele. E achei mais louco que ele lidava com aquilo como se fosse super normal! Eu no lugar dele, já tinha arrumado minhas trouxas e fugido da cidade tem tempo!
   Sério… Li numa época que estava chovendo dias seguidos aqui na cidade, e eu fiquei com medo de entrar algo do tipo na minha casa disfarçado de pessoa com cara simpática. 😲 Inclusive, em muitos momentos tive a impressão de estar lendo sobre o saudoso desenho ‘Coragem, o cão covarde’!

Coragem, o cão covarde

   Em meio a tantos acontecimentos, ele vê em Lettie uma amizade como nunca teve. E é nessa amizade que ele vai aprender lições incríveis sobre a vida, com mensagens muito bonitas por sinal. Lettie Hempstock é uma garotinha bem estranha. Só sua sabedoria secular já espanta qualquer idoso de cabelos brancos, que devem saber metade do que ela sabe sobre a vida.
   Além disso, ela tem o orgulho de dizer que tem um oceano. A princípio, quando somos apresentados ao tal oceano, pensamos que se trata de uma brincadeira de criança, afinal se trata de algo bem menor. Mas esse oceano vai se mostrar parte muito importante de Lettie, e mesmo de nosso garotinho.

“E não era mar. Era oceano. 
O oceano de Lettie Hempstock. 
Lembrei-me disso e, ao lembrar, lembrei-me de tudo.”

   Aparentemente, as Hempstock tem vários homens na família, que seguiram seus rumos e voltam quando precisam. O tempo todo nosso garotinho se aproxima cada vez mais das mulheres Hempstock e vê nelas uma família legal, que ele estava longe de ter em casa. Mas será que ele seria um Hempstock?
   Será que ele aprenderia alguma lição com essa convivência, que o ajudaria na vida adulta? Não sabemos. Sabemos apenas que, por algum motivo, ele esquece de tudo o que aconteceu… como num sonho, que volta a tona toda vez que ele vai parar na cidade, e dá de cara com o “oceano” de Lettie Hempstock de novo.
  O destino de Lettie é traçado quase no final do livro e, assim como o que acontece com nosso garotinho, o final ficou super aberto, com duas opções, literalmente, e escolhemos em qual queremos acreditar. O tempo todo, ficamos pensando se o livro inteiro não passou de uma brincadeira de criança muito bem elaborada, ou se aconteceu mesmo. Eu gostei dessa negócio, pois mexeu mesmo com minha mente.
   Como li a versão digital do livro, só posso falar que a revisão está de parabéns e que a fonte é bem legível. Como já falei no início, a história nos é narrada pela visão do nosso protagonista anônimo, em capítulos bem curtinhos. Como ele ora é criança, ora é adulto, vemos duas versões da mesma pessoa, o que é bem legal, mas ao mesmo tempo, percebemos que certas coisas nunca mudam e nossa criança interior não morre…

“[…] Vou dizer uma coisa importante para você. Os adultos também não se parecem com adultos por dentro. Por fora, são grandes e desatenciosos e sempre sabem o que estão fazendo. Por dentro, eles se parecem com o que sempre foram. Com o que eram quando tinham a sua idade. A verdade é que não existem adultos. Nenhum, no mundo inteirinho.”

   A capa já nos chama atenção, por ser literalmente nosso garotinho no oceano, exatamente numa cena também marcante do livro. Achei ela bem legal e foi exatamente o que deixou curiosa para lê-lo.
  Além disso, independente do mistério sobre o que seriam as Hempstock, é muito lindo ver como elas amam o garotinho. Cuidam dele como se fosse mesmo da família, e Lettie tem uma amizade muito forte por ele.
   Chega a ter um nível de cumplicidade muito forte, e acho que é por essa ligação que ele volta na fazenda, só para ter essas lembranças de volta. Acho que tem uma magia na cidade, que só o faz lembrar quando ele pisa de volta nela e encara o oceano (não tem nada disso dizendo lá, não é spoiler, são apenas pensamentos meus!).
   Somando todos os quesitos, dou nota máxima a esse livro e super recomendo a leitura, especialmente por ser tão fluida. E o livro é tão fininho, que li em menos de uma semana.

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   E aí, já leram esse livro? Ou algum outro de Neil Gaiman? Me contem aí, bora conversar!

“Eu me lembro perfeitamente da minha infância… Eu sabia de de coisas terríveis. Mas tinha consciência de que não deveria deixar que os adultos descobrissem que eu sabia. Eles ficariam horrorizados.”
-Maurice Sendak 

Postado por:

Hanna de Paiva

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