8 de agosto de 2019

Olhai os lírios do campo

   Olá meu povo, como estamos? Hoje eu trago mais uma resenha de um livro que muito me marcou, mas me pergunto por que não trouxe logo aqui no Mundinho. A resenha da vez é de um livro nacional, que emociona a muitos que o leem: Olhai os lírios do campo, de Érico Veríssimo.

Olhai os lírios do campo
Foto: Divulgação

Livro: Olhai os lírios do campo

Autor: Érico Veríssimo

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2005 (Edição original em 1938)

Páginas: 273

Skoob | Amazon


Eugênio Fontes, moço de origem humilde, a custo se forma médico e, graças a um casamento por interesse, ingressa na elite da sociedade. Nesse percurso, porém, é obrigado a virar as costas para a família, deixar de lado antigos ideais humanitários e abandonar a mulher que realmente ama. Sensível, comovente, “Olhai os Lírios do Campo” é um convite à reflexão sobre os valores autênticos da vida.


Olhai os lírios do campo




   Eugênio Fontes é um garotinho de origem bem humilde. Filho de um alfaiate que costura para ricos e uma dona de casa que lava roupas para madames, ele sabe que sua família passa sufoco, mas apesar dos pesares se amam bastante. Seu pai é o típico trabalhador que ganhava muito pouco e trabalhava bastante, chegando a perder horas de sono, o que o fez ficar bastante doente. Mesmo assim, ele não media esforços para fazer com que seus filhos tivessem um futuro digno.
   Como seu pai era bem quisto entre os homens para quem costurava, logo Eugênio conseguiu uma bolsa integral para estudar numa boa escola. Sua mãe também pagava com trabalho, lavando as roupas de cama dos alunos (era um internato masculino), para ajudar a manter o menino matriculado lá. Eugênio, vendo sempre o esforço que seus pais faziam, tinha o sonho de ser médico. Mais ainda, ele sabia que seu pai estava tuberculoso e era uma doença bem comum e traiçoeira; e ele ser médico seria melhor ainda, pois Eugênio sonhava em ser conhecido como o Dr. Fontes, aquele que estudou Medicina e se tornou herói, salvando o pai da tuberculose.
   A princípio, era um futuro bonito para Eugênio, o rapaz sonhador, que sabia de onde eram suas raízes e, mesmo tendo um futuro diferente, daria valor ao seu passado… Mas não foi bem assim que aconteceu. Eugênio era tido como o pobre filho do alfaiate e da lavadeira pelos corredores, o que o fez se envenenar e sentir vergonha da própria família, e o fez se afastar de quem o colocou no mundo.
   Talvez só faltasse isso acontecer para que Eugênio se transformasse de vez num cara sem escrúpulos, sem alma, que mal se importava com ninguém… nem com ele mesmo. Eugênio tinha tudo para ser um bom médico, humilde e bondoso, mas preferiu “se juntar ao lado rico da força”, já que começou a andar com os colegas ricaços da escola, depois com os mais ricos da universidade e, por fim, se casou com uma moça rica. Não importava amor, não importava amigos, não importava família, importava que ele se casou com uma moça rica, cujo pai lhe montou um consultório onde Eugênio trabalhava.
   Mas Eugênio mal sabe que sua vida vai mudar, quando encontrar com fantasmas de seu passado, que sabem mais sobre ele do que ele mesmo jamais pensou.
   Esse é um livro muito especial para mim. Lembro que no Ensino Médio, os únicos livros que me importavam eram os dos vampiros de Anne Rice, pois graças a eles eu me tornei a leitora que sou hoje. Foi graças a eles, que passei a andar sempre com um livro na mochila, sempre queria saber o que tinha na próxima página, quando ia sair o livro seguinte… eu passei a ter uma vida de leitora no segundo ano do Ensino Médio, o que chamou a atenção de professores, especialmente a de Literatura, que falava sobre os autores brasileiros e os estilos literários que cada um representava.
   Sempre tem aquela disciplina que você não atura e, por incrível que pareça, eu não aturava exatamente as aulas de Literatura. Achava que os autores brasileiros eram chatos, nenhum livro era bom e somente os estrangeiros eram legais. Minha professora não se conformou muito com isso e armou um plano que mudou minha vida para sempre: um belo dia, ela levou uma pilha de livros de literatura brasileira, que cada aluno iria levar um para casa, tinha um tempo para ler e resenhar o bendito, além de identificar o gênero literário, ano da história, e afins. Fiquei muito chateada quando o livro que ficou para mim foi o último, que ela deixou de propósito: um livro com a capa caindo aos pedaços, todo manchadinho pelo tempo e com a capa remendada. E ela apenas disse que tinha escolhido aquele livro especialmente para mim, pois sabia que eu era perfeita para ler ele.
   Na hora reclamei pra caramba, mas obedeci. O livro era ‘Olhai os lírios do campo’ e nessa época eu paguei pela minha língua em dois quesitos: nunca julgar um livro pela capa e literatura brasileira pode ser muito boa sim, é só ler com carinho.

Olhai os lírios do campo
Foto: Hanna Carolina/Mundinho da Hanna

   Aqui eu conheci Eugênio. Era um menino pobre, que vivia numa situação apertada de grana em casa, porém seus pais nunca deixaram faltar amor, carinho nem lição de caráter. Eles trabalhavam que nem uns condenados para sustentar os filhos, mas Eugênio ficava receoso de sair na rua, pois sempre tinha um coleguinha para rir da cara dele, que andava com calça remendada. Depois que entrou no internato, ficando adolescente e suscetível a tudo o que os colegas falavam, sobre as riquezas que tinham e que Eugênio não poderia nunca ter.
   Mas ele contava muita vantagem, dizendo que era tão rico quanto eles. Rolava na escola boatos que um pobre ganhou bolsa, mas Eugênio fazia questão de dizer que não era ele o filho do alfaiate e da lavadeira, atravessava a rua para não falar com os pais, o que era motivo de vergonha para ele. Isso me deixou com muita raiva, especialmente por que os pais dele fizeram tudo pelo filho, e nem um “oi” ganhavam na rua. O pai nunca falou nada, mas eu notei que ele tinha certa mágoa do filho por isso. Mesmo tendo a vergonha, Eugênio sempre quis ser médico, especialmente quando o pai ficou doente e não podia pagar por um. Eugênio pensava sempre com seus botões que seria o médico dos pobres, que ficaria famoso por ter salvo a vida do pai… Porém seu pai morreu antes mesmo que ele chegasse na metade da faculdade de Medicina… O que não ia mudar muita coisa também, já que os alunos da faculdade também eram ricos e esnobes, coisa que Eugênio tomou para ele como a única certeza da vida.
   Seus pais lhe desejavam uma vida melhor, mas acho que Eugênio não entendeu muito bem o recado. Olhando para os ricos que o cercavam, para ele a única solução era ser rico também. Mas como ele estava “sem eira nem beira”, o jeito era arrumar uma moça rica que aceitasse se casar com ele. E assim ele se casou com Eunice Cintra, uma milionária, filha de um cara que não media esforços para ver a filha feliz. Eugênio, ou Genoca, como seus próximos o chamavam não amava Eunice, nunca amou. Mas era o marido dela, como a única oportunidade de construir seu consultório, seu império… e o plano de ser médico dos pobres logo ficou para trás.
   Ele achava que tinha uma vida perfeita, com tudo tranquilo e permitido, aonde o dinheiro o levasse ele ia, sem medo… tinha tudo… e ao mesmo tempo, tinha nada…
   Apesar de ter “amigos” ao seu redor, Eugênio sabia o quanto as pessoas podiam ser falsas, o quanto eles se matavam por um milhão a mais na conta para esfregar na cara do tal amigo. E aquilo foi fazendo ele se perguntar o que estava fazendo da vida, porém, sem admitir que algo estava errado. A única pessoa que realmente o conhecia a fundo era uma moça que ficou para trás há muito tempo, uma colega de faculdade e também médica, a Dra. Olívia.

Olhai os lírios do campo
Foto: Hanna Carolina/Mundinho da Hanna

   Eugênio passou a se lembrar dela com mais frequência quando recebeu a notícia de que ela estava muito doente, e queria vê-lo. Mas ver Olívia era como ver seu passado pobre, e Eugênio não queria encarar seu fantasma. Mas não pôde mais fugir, quando ele recebeu uma missão, a de cuidar do enterro de Olívia e do tesouro que ela deixou no mundo.

“Hoje tens tudo quanto sonhavas: posição social, dinheiro, conforto, mas no fundo te sentes ainda como aquele Eugênio indeciso e infeliz, meio desarvorado e margo que subia as escadas do edifício da faculdade, envergonhado da sua roupa surrada. […] Tens tido crises de consciência, não é mesmo?”

    Se o ditado “o mundo dá voltas” fez sentido alguma vez, foi exatamente nesse livro. Eugênio cuspiu em seu passado o tempo inteiro, mas o passado se encarregou de encontrar Eugênio quando ele estava mais frágil. Num casamento de aparências e infeliz, ele foge para ver que tesouro era aquele que Olívia tanto queria que ele cuidasse. E tomou um susto quando deparou com uma pilha de cartas que ela escreveu no leito de morte para ele, além de um segredo que ela mesma nunca lhe contou… até morrer… Cartas longas, com tanto puxão de orelha, que Eugênio ficou doido e não sabia mais o que fazer da vida.
   De uma hora para outra, ele passou de um médico rico e sustentado pelo sogro a um cara que deveria ter feito tudo aquilo que ele confessou à única mulher que amou na vida. E ele começa a questionar tanta coisa, que resolve mudar de vida e recomeçar. Mas depois de tanto tempo, isso ainda é possível? Isso ainda faz sentido? Quanta coisa ele perdeu, cego pela vontade de ser rico e nada mais?
   E quanto às pessoas que conviviam com ele? O que a sociedade vai pensar? É tanta coisa, que Eugênio pira na batatinha. Mas as cartas de Olívia se tornam sua âncora e, mesmo depois de morta, ela ainda foi capaz de mexer com Eugênio, dando puxões de orelha, ao mesmo tempo que dava conselhos sobre amizade, amor ao próximo e a vida. Ele começou a pensar sobre quem realmente era seu amigo e quem só falava com ele, por que era o genro do Cintra. Quem o queria bem e quem só queria que ele se sumisse do mapa para tomar seu lugar.

“Quero que abras os olhos, Eugênio, que acordes enquanto é tempo.” 

   Até que ponto você sonhar com uma vida confortável vai te fazer ser realmente feliz? O que é ter uma vida confortável? O que é ser feliz? O que realmente importa na vida? ‘Olhai os lírios do campo’ é um livro que se passa no final da década de 1930, onde muita coisa ainda era comum. A tuberculose matava muita gente, a carga de trabalho dos operários era muito grande e as pessoas mal respiravam; literalmente morriam de tanto trabalhar. Grande parte da vida era no campo e quem tinha casa na cidade era muito rico ou trabalhava na casa de alguém muito rico. Eugênio queria ser um desses muito ricos, mas o custo disso foi muito alto, e ele pagou cada centavo, se posso assim dizer. Se isso foi bom ou ruim, não posso afirmar, mas eu posso dizer que me arrancou lágrimas.
   Esse foi meu primeiro contato com Érico Veríssimo que, coincidentemente, revolucionou a literatura com essa publicação. A escrita é fluida, com mensagens sobre a vida o tempo inteiro. Além disso, o romance de Olívia e Eugênio pode ter ficado no passado, mas marcou tanto a vida deles, quanto a de quem lê. As cartas de Olívia então, são puxões de orelha para Eugênio e para mim, muitas vezes.

Olhai os lírios do campo
Foto: Hanna Carolina/Mundinho da Hanna

   Confesso que esse foi um livro que li e reli várias vezes, sem me cansar. Poucos livros mexeram tanto com meu coração quanto esse. E acho que minha resenha também tocou o coração da minha professora de Literatura. Ela disse que sempre soube que eu me apaixonaria por esse livro e até hoje agradeço a ela por ter feito isso. E acho que me lembro mais emotivamente, pois soube há pouco tempo que ela veio a falecer, devido a um problema cardíaco sério. Então, mais do que um marco na minha vida de leitora, acho que esse livro é um marco na minha vida como um todo.
   Com relação ao livro em si, a edição que tenho é de 2005, que comprei depois de entregar o trabalho final, já que tive que entregar o exemplar que li. Ela é simples, mas muito linda ao mesmo tempo. Como o título já lembra o campo, a capa tem um cenário mais rural também. Ela é simples, em tom de amarelo e cinza, feita em papel cartão. O livro em si é impresso em papel pólen, com uma fonte agradável à leitura.
   Acho que não poderia dar outra nota se não a máxima para esse livro, o qual também super recomendo a leitura.


   Até mais!

 

Postado por:

Hanna de Paiva

Gostou? Leia esses outros:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Classificação de resenhas

Péssimo
Ruim
Regular
Bom
Ótimo

anuncie aqui