31 de janeiro de 2021

[Postagem Extra] Novo Mundo em chamas | Viktor Waewell

Olá meu povo, como estamos? Hoje temos postagem extra por aqui, com a resenha de Novo Mundo em Chamas, do autor nacional Viktor Waewell.
Novo Mundo em chamas | Viktor Waewell
Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

 

OBS.: Exemplar cedido gentilmente pelo autor

4/24 
Livro: Novo Mundo em Chamas
Autor: Viktor Waewell
Editora: Independente
Ano: 2020
Páginas: 411
Skoob | Amazon

 

Negros fugidos no mato, um exército dos fidalgos e índios que comem gente são alguns ingredientes deste épico histórico arrebatador, por uma das vozes mais originais da literatura brasileira contemporânea.
Quando os fidalgos expulsam os invasores holandeses do Nordeste, sua máquina de guerra volta-se para o interior, para a grande região de Palmares, lar de vilas e cidades fortificadas dos pretos, localidades chamadas mocambos, e de tribos selvagens remanescentes, com seus exímios guerreiros.
Você vai vivenciar este embate, palco de algumas das maiores batalhas já travadas em solo americano, com heróis e vilões dos dois lados, entre soldados e guerreiros ferozes, capitães do mato, pretos que buscam vingança e poderosos senhores brancos, com reconstituição histórica fiel.
O seu coração vai acelerar, os pelos dos braços vão arrepiar, com o medo, a coragem, os amores e as traições, no melhor estilo “é impossível parar de ler”.

 

Novo Mundo em Chamas | Viktor Waewell

 

 Século XVII, o Brasil está passando por uma fase de lutar pelo seu território, expulsando os holandeses. Pernambuco está em polvorosa e as tropas portuguesas estão lutando como nunca. Depois que conseguissem cumprir a missão, a promessa de uma vida pacata, com uma quantia gordinha de dinheiro no bolso e paz faz os soldados lutarem com todas as forças.
Missão cumprida com êxito, Portugal vence a batalha, junto com negros e índios aliados. Olhando assim, parece que dias de paz logo voltarão. Mal as chamas da última disputa estão se tornando cinzas e os portugueses logo estão de olho em outro inimigo para derrotar.
Eles não se conformam que a “ordem das coisas” esteja sendo desafiada por negros fugidos. Afinal, eles foram feitos para servirem de toda forma aos brancos e não estão dispostos a aceitar outra condição. O Novo Mundo está em chamas, que aprecem nunca acabar; todos querem sair vencedores, mas quem será que vai vencer essa batalha?

“Isso, sargento, é o que os senhores chamam de ordem no mundo.”

Se eu li algo de ficção histórica na vida, sinceramente não me lembro. Então encarei esse livro como uma primeira experiência com o gênero. O Viktor foi super simpático e fez uma propaganda tão legal de livro dele, que fiquei curiosa e resolvi dar uma chance.
Nossa trama tem como cenário o Nordeste brasileiro em período colonial, onde os holandeses se fixaram e começaram a dominar a colônia que, até então, pertencia a Portugal. O livro começa com a última batalha, em que os portugueses expulsam oficialmente os holandeses e cantam vitória pelo território defendido.
Muitos dos soldados enviados para as batalhas em questão eram empregados/escravos de fidalgos da corte portuguesa, que tinham terras vastas ao longo do Nordeste, com engenhos de cana de açúcar. Eles se uniram para lutar por uma causa em comum, o que deu bastante certo num primeiro momento.
Mas quando a batalha terminou, o que era para ser um momento de felicidade e paz se tornou um tormento na vida deles. Isso porque os soldados se meteram numa briga que não era a deles, em nome de vida boa de calma depois, alforria para alguns e até terras para outros.
Promessas essas que não foram cumpridas, já que os fidalgos estavam com o saldo tão negativo, que admira que ainda tinham como pagar as próprias contas da casa. A quantidade de moradores de rua aumentou absurdamente, com soldados que não tinham para onde ir e nem uma causa pela qual lutar.
Para resolver o problema, eis que os fidalgos decidiram… lutar novamente! Baseando na promessa de que a luta não acabou, eles decidiram que se derrubassem os mocambos que estavam se tornando mais fortes, teriam mais escravos para vender e trabalhar para eles, o que aumentaria a renda deles, de certa forma.
Então a luta saiu do litoral e se mudou para o interior, onde os mocambos estavam se formando e ganhando força, com negros fugidos, muitos dos quais guerreiros e autoridades em sua terra natal, o que poderia ser muito perigoso para os portugueses, que pregavam sua superioridade máxima.

“E este, sem dúvida, é o maior dos perigos, um homem com uma causa.”

Entre os personagens, temos os fictícios e os que de fato existiram. Dos fidalgos citados na trama e que são reais, temos a família de Cristóvão Lins, que é uma das mais poderosas da época. Cristóvão é um cara carismático quando quer e sabe que é necessário.
Com sua voz mansa e carinha de “homem de bem”, aos poucos vamos conhecendo um pouco mais de quem ele é realmente: um cara com dom para politicagem, frio e egoísta, que acha que tudo o que ele faz é em nome de Deus, já que um de seus irmãos é padre. Sibaldo Lins e Cristóvão Lins são praticamente os donos da cidade, com tentáculos espalhados por todos os cantos e não tem medo nem vergonha de cobrar os favores de quem lhe deve.

 

Isso mexe com a ambição de muita gente, especialmente Jeremias, um dos integrantes da tropa de Cristóvão, mas que tem o sonho de ser muito mais que isso. Jeremias é o típico cara que morre de vergonha de assumir quem é de fato, então cria um personagem de si mesmo para vender para a sociedade.
Para seus superiores, é um cara leal e sempre a postos, disposto a morrer em nome de uma causa justa. Pelas suas costas, ele é um cara invejoso, cruel e sádico, que só fica feliz quando pisa nos outros e os vê sofrendo. Pela sua posição no exército, tinha direito a ter algumas regalias, mas egoísta e invejoso que só, Jeremias quer mais e mais, e quando não consegue, não sabe lidar com as derrotas. Isso o faz ser um dos personagens mais mesquinhos, egocêntricos e nojentos que temos aqui.
Quando lia as cenas dele, já preparava o meu estômago, especialmente quando ele lidava com os escravos, como se fossem um pecado eles terem vindo ao mundo e tinham que pagar da pior forma. Eu sei que naquela época era muito comum que essas coisas acontecessem e eram super normais; afinal, eram os padrões da sociedade. Mas não consegui deixar de pensar que ainda tem muitos Jeremias em pleno século XXI, pensando e agindo dessa mesma maneira, o que me deu nos nervos e precisei de muita calma e contar até 100 para não querer arrumar uma máquina do tempo e dar um jeito eu mesma nessa situação.
Do outro lado, temos Ernesto, um sargento excepcional, que chamou bastante atenção pela sua astúcia durante a batalha de expulsão dos holandeses. Ele é sempre visto com bons olhos por Cristóvão, que faz sempre questão de escalar o rapaz para lutar na linha de frente, como batalha já ganha. Não pensou duas vezes ao convocá-lo para invadir e derrubar Palmares, pois com ele seria uma batalha facilmente resolvida.
O detalhe que chama bastante atenção é que Ernesto é negro, lutando por uma causa dos brancos… para derrubar um território dos negros… Ernesto só quer viver em paz consigo mesmo e obedece ordens, mas Jeremias está com muita raiva por ter que lutar e obedecer ordens de Ernesto.
Logo, a relação desses dois tem tudo para soltar muitas faíscas, especialmente porque Ernesto foi treinado por Antônio Dias, só um dos melhores estrategistas da colônia (e um dos patriarcas do Exército Brasileiro), o que deixa Jeremias com mais inveja ainda. Já senti raiva de muito personagem, mas acho que Jeremias ganhou o prêmio de vilão mais odiado de todos.
Novo Mundo em chamas | Viktor Waewell
Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

 

Até ler sobre as coisas do ponto de vista dele me deixava com raiva e eu me via contando as páginas para acabar logo as cenas dele. Não bastasse a briga entre negros e brancos, os índios estão só aquecendo os tamborins para retomar a terra que os negros e os brancos tomaram deles sem pedir licença.
Afinal, não tendo para onde ir, os escravos que fugiam montaram logo acampamento na terra dos Caetés, cercaram e formaram vilas e quase cidades, sem nem perguntar se a terra tinha dono. Os Caetés não se entendiam com os brancos, e estão começando a ficar com raiva dos negros, que parecem só aumentar a população na terra que não é deles de direito.
Apesar disso, eles podem ser grandes aliados para qualquer um dos lados, se forem cativados do jeito certo. Vai ser preciso muito jogo de cintura para lidar com os nativos, especialmente por serem um povo de guerreiros muito fortes. Esse não é um livro que tenha mocinhos e bandidos bem definidos. Ele é uma parte de nossa História, com pessoas bem reais, diga-se de passagem.
Os personagens fictícios e reais se misturam de uma tal forma, que parecem todos terem existido e deixado sua marca no país. Ninguém é herói o tempo todo, todo mundo teve sua parcela de vilão em algum momento. Não apenas os homens, mas também as mulheres tiveram um papel fundamental nessa batalha.
Enquanto os brancos pregavam uma sociedade extremamente machista e radical, Palmares era liderado por mulheres empoderadas e que não baixavam sua cabeça para qualquer coisa, especialmente macho babaca, que parece ser uma doença antiga.Entre elas, temos participação especial da Sra. Aqualtune, uma princesa africana que veio para cá e não aceitou menos que sua coroa de direito. Quando lhe empurraram correntes e trabalho forçado, ela se tornou um exemplo para muita gente, ao lutar contra o sistema e agir como a princesa guerreira que era em sua terra.

“Um guerreiro deve lutar para proteger os que não são guerreiros, uma simples verdade.”

Isso foi inspiração para muitas outras mulheres, como Diara e Teresa, duas personagens fictícias, mas que poderiam muito bem ser exemplos de mulherões da p*! Confesso que fiquei alma lavada quando li as cenas de Diara, lutando pelos ideias que realmente acredita e sem medo dos que iriam pensar dela.
Por outro lado, Teresa poderia representar o grito de liberdade que muitas mulheres gostariam de dar, mas nunca conseguiram. Fiquei impressionada com o desfecho da trama, que apesar de a gente saber como termina, afinal é só olhar documentários e livros do tema, eu não tinha dado a emoção que ela deveria ter.
Não sei vocês, mas eu nunca olhei para os fatos históricos com essa pegada de ação. Eram como cenas de quadros antigos, parados lá nos livros e apresentados como fatos aleatórios. Ler agora esse livro foi como se amarrasse todas as pontas e desse vida novamente aos acontecimentos, com todo o “tiro, porrada e bomba” que de fato tiveram e foi uma experiência incrível.
O que dá mais crédito ainda ao livro é uma nota do autor que temos no final, onde o autor conta como foi o processo de pesquisa e ainda faz todo um apanhado histórico dos bastidores do cenário da batalha. Além disso, ele teve todo o cuidado de explicar quem era real e quem não era. Mas a leitura ficou tão envolvente, que nem faz diferença no final das contas.
Os personagens ficaram muito bem trabalhados, se encaixaram super bem e, se ele não tivesse falado nada, eu acreditaria que todos teriam existido mesmo. Não posso dizer que todas as pontas foram amarradas e nem que o final foi fechado, afinal ele relata apenas uma parte de tudo o que aconteceu.

No entanto, é um final satisfatório, que você termina apenas com um “UAU!, Que livro foi esse?!” Falando do livro em si, li o exemplar físico, que tem uma capa maravilhosa, muito bem trabalhada e numa harmonia de cores que lembra mesmo meus livros da escola.

A fonte do texto está num tamanho ideal e a revisão foi muito, muito bem feita por sinal. Além disso, as páginas são amareladinhas, de gramatura perfeita e dá para passar fácil. O texto é narrado em terceira pessoa, mas em algum momento podemos ver as coisas do ângulo de alguns personagens, como Teresa, Ernesto, Jeremias e o próprio Cristóvão Lins.
Apesar de restrita a esses personagens, a visão não ficou enviesada, o que foi um artifício arriscado, mas que deu um resultado interessante. Achei interessante também que o autor se preocupou com a arte apenas da capa, e deixou o miolo mais simples e objetivo.
Novo Mundo em chamas | Viktor Waewell
Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

 

O resultado ficou num livro minimalista e que mostra o que veio: para mostrar a história real e imaginação fica por conta do leitor. E, para falar a verdade, não foi difícil disso acontecer, já que ele detalha tão bem os cenários, que a gente se vê dentro deles, participando de cada parte, vendo cada coisa acontecendo.
Apesar de perturbadores em algumas cenas, os detalhes em si não foram exagerados, então a gente lê de boas, sem se perder na história propriamente dita, o que acabou dando alguns pontos para o Viktor. Resumindo, se você quer ler um pouco de nossa História, mas não sabe muito como fazer isso, recomendo esse livro.

“As pessoas acreditam no poder das palavras escritas, a ponto de fazerem guerras por elas. Também é como conhecemos o passado.”

Apesar de ser uma ficção, é baseado em lugares nossos, com povos nossos e uma História nossa. O que pode até te dar pistas de por onde pesquisar mais a respeito.

 

Já tinham lido um livro desse estilo? Curtem ou preferem a ficção ficção mesmo? Me contem aí!
Postado por:

Hanna de Paiva

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