3 de agosto de 2023

Sal e Açúcar | Rebecca Carvalho

Olá meu povo, como estamos? Hoje temos a resenha de ‘Sal e Açúcar’, um romance YA nacional escrito por Rebecca Carvalho.

 
Sal e Açúcar | Rebecca Carvalho
Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

37/60
Livro: Sal e Açúcar
Autora: Rebecca Carvalho
Tradução: Fernanda Castro
Editora: Record
Ano: 2023
Páginas: 368
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Os netos de duas padarias brasileiras rivais se apaixonam, apesar da rivalidade de suas famílias nesta deliciosa comédia romântica de estreia perfeita para os fãs de Nicola Yoon e Gloria Chao.

Sal e Açúcar | Rebecca Carvalho

As ladeiras de Olinda abrigam mais do que casas coloridas. É também local de muitos estabelecimentos comerciais, incluindo padarias que passaram de geração em geração. Porém, duas delas estão em guerra desde o início: a ‘Sal’ – dirigida pela família Ramires – e a ‘Açúcar’ – comandada pelos Molina –. 
Os anos passaram e a rixa parece nunca ter fim. Mas será que é apenas uma disputa de concorrência ou tem algo mais por trás disso tudo?  Além disso, certas coisas começam a acontecer e ambas as padarias precisam lutar para se manterem de pé. Será que a briga vai se manter por mais tempo? Só lendo para saber.
Essa foi uma leitura coletiva, mediada pelo Clubinho da PequenaJornalista. Uma das coisas que mais gosto no grupo é que sempre lemos romances leves, do estilo “água com açúcar”, o que é uma ótima saída para alternar com os livros mais pesados que costumo escolher na TBR mensal. 
Para minha surpresa, ‘Sal e Açúcar’ se passa em território nacional e é escrito por uma autora brasileira, mas que mora fora há muitos anos. Por conta disso, a obra tem edição em Português, contudo foi lançada lá fora antes. Pode parecer um detalhe bobo, no entanto fez uma enorme diferença para mim, dado que afetou consideravelmente a minha experiência de leitura.
A narrativa é em primeira pessoa e vemos os fatos pelo ângulo de Larissa Ramires. A jovem está no último ano do ensino médio e está às voltas do encerramento do ano letivo, junto com as emoções e pressão que o vestibular traz. Porém, sua vida dá um giro de 360° quando D. Julieta, sua avó, parte de modo repentino.
A senhorinha deixa um imenso buraco, não apenas para a família, mas também para os clientes da Sal que já consideravam quase uma marca registrada da cidade. Porém, tudo se torna ainda mais difícil para a mocinha ao ver que os Molina faziam de tudo para manter a concorrência, sem dó.
E é nesse cenário que conhecemos a família rival, onde vive Pedro. O rapaz estuda na mesma classe que Larissa e não perde a oportunidade de levar a rixa a ferro e fogo, seja dentro ou fora das padarias.
Ambos são super inteligentes e competem em tudo, desde notas nas provas até para ver quem é o mais popular. No entanto, a distância entre eles está para ficar mais curta depois que a professora de matemática coloca os dois no mesmo clube de culinária.
Não seria algo ruim, já que ambos são filhos de padeiros e seria esperado que mandassem muito bem na cozinha. Mas até que ponto é seguro deixar uma Ramires e um Molina sozinhos debaixo do mesmo teto, sem supervisão?

“É estranho pensar que nosso futuro está nas mãos de uma receita de bolo. Mas não é esse o destino de todos os Ramires e Molina?”

Aos poucos, somos apresentados a uma parte do Nordeste brasileiro que dá água na boca, de modo especial quando se trata das guloseimas preparadas nas padarias. Confesso que lia e ficava com a barriga roncando, doida para passar na primeira padaria que via e comprar um sonho, ou um pão doce. Fora que a autora caprichou tanto nas descrições dessas cenas, que podia salivar imaginando o sabor e o cheiro deles saindo do forno.
Além disso, a escrita da Rebecca é fluida e me manteve imersa o tempo todo na leitura. O que ajudou bastante com uma trama leve e carregada de cenas cômicas, as quais foram um alívio na minha cabeça.

Sal e Açúcar | Rebecca Carvalho

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

 Algo que também gostei bastante foi de ver os laços de família e amizades sendo formados. O elenco é relativamente grande, mas todos foram bem desenvolvidos e a autora soube manter os plots bem guardados para serem revelados na hora certa. O que rendeu pontos positivos para a obra e me fizeram querer guardar todos num potinho.
Me diverti bastante com o núcleo do clube de culinária. Os alunos eram bastante unidos e se mostraram aliados valiosos quando Larissa e Pedro mais precisavam. Ainda, tenho que destacar a presença de Seu Romário (avô de Pedro) e Amandinha (a garotinha da ONG Vozes). 
Cada um ao seu modo ensinaram grandes lições aos protagonistas, que até serviram para mim. Me vi refletindo sobre alguns momentos de sabedoria, vindos de onde menos se espera, o que muito me surpreendeu.
A menininha é uma graça e me lembrou umas crianças que fazem parte do meu círculo social. Ela é um grande exemplo de que a humanidade ainda tem esperança, se as gerações mais novas forem direcionadas da forma correta.
Já o avô de Pedro é o completo oposto: um velho turrão e que não aceita que as regras sejam quebradas, não importa o século que estamos vivendo. Isso gera muitos momentos de farpas e tensão. Contudo, o senhorzinho tem muitos motivos para ser assim e, quando eu descobri, foi impossível não querer abraçar ele e falar que nunca é tarde para mudar certos hábitos e pensamentos, basta estar disposto para tal.
É muito interessante ver como a trama se desenvolve também do lado dos Ramires. Após a partida de D. Julieta, só ficaram Larissa e sua mãe. Apesar de unidas, a mais velha parece estar bem perdida em relação às responsabilidades que caíram sobre suas costas.
As coisas ficam mais pesadas conforme a inscrição para o vestibular se aproxima. Isso porque o destino da jovem meio que já foi traçado, sem que lhe perguntassem se esse era realmente seu desejo. Dessa forma, temos momentos bastante tensos entre as paredes da Sal, que me lembraram um pouco minha época de provas, pois passei por algo semelhante.
Felizmente, aqui em casa as coisas se resolveram de modo positivo. Porém, sei que nem sempre essa é a realidade de famílias onde temos gerações de profissionais, que muitas vezes só seguem o que seus progenitores determinaram, sem ao menos questionar um caminho alternativo. 
O que leva a vários profissionais que só trabalham pelo valor financeiro, mas não fazem questão alguma de esconder a frustração. Ver um caminho desse entre os Ramires me deixou bem agoniada e triste ao mesmo tempo, vendo que não poderia fazer nada para ajudar a mocinha.

 

“Mas como um sonho pode sobreviver diante de tantos obstáculos?”

Contudo, por ser uma leitura mais levinha e até previsível, era de se esperar que tudo se resolvesse em algum momento, de forma positiva. O que de fato aconteceu e fiquei satisfeita… até a página 2. Pois é, apesar de ter muitos pontos favoráveis, nem tudo são flores e preciso desabafar sobre o que me incomodou, a começar pelos protagonistas.
Larissa é uma jovem adorável, inteligente e determinada, mesmo que o mundo lhe diga o contrário. Gostei bastante de ver a relação dela com a mãe, a avó (ainda que em lembranças) e quando faz as novas amizades.

Sal e Açúcar | Rebecca CarvalhoFoto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

 

Entretanto, a autora quis usar uma veia cômica no elenco e escolheu o clichê da mocinha atrapalhada. O que deu muito certo em filmes e livros de anos atrás, porém hoje não é mais tão engraçado, mesmo se tratando de uma adolescente.
O jeito como ela é retratada na trama pareceu mais uma comédia pastelão, de tão caricata. O que me convenceu nas primeiras páginas, mas depois perdeu a graça e eu já revirava os olhos.
Especialmente quando aconteciam coisas tão bestas, que solução era óbvia e não precisava de tanto alvoroço (mesmo que você não saiba nem fritar um ovo). Me dava a sensação de que a autora queira forçar uma situação cômica e perdia a noção do limite entre o engraçado e o ridículo, me incomodando um bocado.
Além disso, a autora fala que escreveu o livro se baseando em suas lembranças de quando morava no Nordeste. Mas acho que teria sido válido reavaliar tais memórias, fazendo uma nova visita à sua terra natal, ou mesmo uma pesquisa mais apurada.
Isso porque é anunciado que tem um foco grande em tradições de Pernambuco, as quais não são levadas em consideração, nem mesmo no segundo plano. Foram ignoradas as festas mais importantes, assim como o carnaval e suas danças mais características, gírias e regionalismos, consideradas praticamente inexistentes – em especial pela parte de Larissa.

Ela alterna bastante entre ser uma típica nordestina e uma visão americanizada do Brasil. Algo que teria sido relevado se fosse uma autora estrangeira. Mas vindo de uma brasileira, ainda mais pernambucana, decepcionou bastante.

Pedro Molina, por sua vez, é o menino rebelde. Embora seja algo típico do clichê adolescente (a mocinha que se apaixona pelo bad boy), considerei algumas de suas atitudes quando o conheci um pouco mais a fundo.
O rapaz tem muitas angústias e medos, como qualquer adolescente, mas também sabe ser um líder e bom amigo quando necessário. Ver a relação dele com Larissa foi a melhor parte (que teria sido melhor aproveitada se a mocinha não fosse tão caricata). A química entre os dois é crível e surpreendentemente bem desenvolvida, sem ser apressado, ou mesmo morno.

 Além disso, ele tem uma mão muito boa na cozinha, o que me deixou com uma fome desgraçada a cada vez que chegava no clube (rsrsrs). Queria muito entrar no livro só para provar os quitutes que o rapaz fazia com maestria. O que poderia ser bem divertido com toda a equipe reunida, cozinhando ao som de forró e falando palavras que há muito tempo eu não ouvia (tenho uma veia nordestina também, então deu uma boa nostalgia).

No entanto, confesso que nunca vi uma escola com clubes como esse no Brasil. Pode ser ignorância minha e algumas instituições particulares de fato tenham esse hábito. Mas ler isso me lembrou muito as escolas dos filmes e séries estadunidenses, onde isso é mais comum.

O que não era tão condizente com a trama, ambientada no Brasil. Ainda mais levando em consideração que eles estudavam em uma escola pública, a qual não costuma ter iniciativas como essa (normalmente são aulas de reforço e/ou atividades esportivas).

Quem também me incomodou muito foi a mãe de Larissa. Além da questão tensa entre as duas, sobre universidade e carreira profissional, talvez as coisas tivessem sido resolvidas de uma forma mais madura se a mulher agisse como uma adulta e não uma adolescente (mais do que a filha, aliás). Embora considerasse o luto, que pode nos mudar de formas inimagináveis, achei algumas atitudes dela desnecessárias e irrelevantes para a trama.

Sal e Açúcar | Rebecca Carvalho
Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

O que ficava pior quando cruzava com a mãe de Pedro, que parecia não ter mais o que fazer da vida, além de espionar a vida alheia e colocar o dedo em feridas nas quais não foi chamada. Sei que tinha toda a questão da rixa familiar como pano de fundo. 
Mas essas duas brigavam por qualquer motivo e parecia mais reprises de ‘Casos de Família’ misturado com ‘Programa do Ratinho’, o que não colou muito e garantiu muitas viradas de olhos.


“As palavras de mainha soam como uma declaração de guerra.”

No entanto, apesar de ter muitas ressalvas em relação a esse livro, o que salvou e garantiu a nota positiva foram os personagens secundários, como Amandinha e Seu Romário (o único centrado entre os Molina, depois de Pedro), as gulodices e a narrativa mais fluida. Ainda, o desfecho amarrou algumas pontas de modo crível e satisfatório, mantendo um clima de contos de fadas como a trama prometia. Contudo, não é uma obra que eu leria novamente.

Falando sobre o livro em si, li em versão digital e gostei da diagramação. A capa é bem colorida, com os protagonistas em destaque, em suas respectivas padarias. A revisão está bem feita e a fonte legível, o que garantiu uma ótima experiência de leitura.

Além disso, não é porque uma obra não deu certo comigo que será da mesma forma com você. Assim, recomendo a leitura para que tire suas próprias conclusões.

Texto revisado por Emerson Silva 
Postado por:

Hanna de Paiva

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