3 de agosto de 2021

Um amigo do outro lado | Carol Camargo

    Olá meu povo, como estamos? Hoje temos resenha do último volume da antologia Femme Fatale, que fez uma belíssima releitura dos contos de fadas, com protagonistas femininas bem girl power
     Para fechar, temos a história de Tiana, a protagonista de A princesa e o sapo, de uma forma que jamais teria imaginado, mas que ficou genial. 
Um amigo do outro lado | Carol Camargo
Foto: Hanna Carolina/Mundinho da Hanna

 
40/24
Livro: Um amigo do outro lado 
Autora: Carol Camargo 
Editora: Increasy 
Ano: 2021
Páginas: 92
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Tiana, filha de Xangô, é dona e chef do restaurante “Comida de Rei”, localizado no território quilombola “Chácara dos Vaga-lumes”. O crescente sucesso e desenvolvimento do local acaba atraindo a atenção de um vereador importante da cidade, que vê na desapropriação do território uma possibilidade de ganhar dinheiro. Precisando lutar contra o poderoso político local, Tiana vai buscar no Sagrado a força e ajuda necessária para fazer a justiça acontecer.
“Um amigo do outro lado” é inspirada na história de Tiana, personagem de “A princesa e o sapo”. O livro faz parte da antologia Femme Fatale, composta por 11 novelas sem relação entre si de 11 diferentes autoras da Increasy Consultoria Literária, com a proposta de trazer uma releitura de princesas e heroínas da literatura.


Um amigo do outro lado | Carol Camargo


   Como comentei no começo, Um amigo do outro lado traz a releitura de A princesa e o sapo, com Tiana como nossa protagonista. 
   Eu fiquei bem curiosa quando li a sinopse, especialmente por saber que lidaria com um tema que eu, pelo menos, não vejo com frequência em literatura, religião de matriz africana. 
   Assim como no conto original, aqui a protagonista mantém as características: negra, humilde, batalhadora e que ama cozinhar. 
   Tiana vive com a mãe e os amigos numa comunidade quilombola, que é famosa por atrair turistas quase o ano inteiro, para ver o espetáculo dos vaga-lumes. 
   Como de praxe, uma das paradas do passeio pela comunidade é no restaurante Comida de Rei, que ela comanda desde o falecimento do pai.   
   Tiana tem ajuda de toda a comunidade para cuidar de cada item que ela usa em suas receitas, que atrai gente de todos os cantos, de tão boa que é. 
   Ela não é rica de dinheiro, mas se orgulha de toda a riqueza que possui, como os frutos de seu trabalho, onde ela põe todo o seu coração. 
   Porém, os dias do restaurante Comida de Rei, assim como da própria comunidade quilombola, estão contados, desde que eles receberam a notificação de desapropriação, em nome do vereador Trosch. 
   Essa não será uma briga fácil, mas Tiana vai ter que arranjar forças de todos os cantos para lutar nessa batalha e honrar suas raízes e seus direitos. 

“Bom, para mim não é comida. Eu acho que toda receita carrega uma história, uma memória. E, no nosso caso, comida também é resistência.”

  Ansiedade e curiosidade seriam pouco para definir o quanto eu esperava para finalmente ler esse conto. 
  Parte delas era porque o conto d’A Princesa e o sapo é o meu favorito entre os contos de fadas, apesar de saber que é um dos mais sombrios (mas qual deles em versão original não é sombrio?).  
  Tiana foi criada nas bases da religião de seus pais, é filha de Xangô e tem muito orgulho disso. Eu achei muito interessante ver como foi abordado o assunto, de uma maneira tão simples, ao mesmo tempo suave e delicada, que você quer saber cada vez mais. 
   Achei muito legal a forma como a Carol abordou a parte dos orixás, que aqui também fazem parte do elenco, como “a turma do outro lado”. 
   A forma como eles aparecem ficou tão bem bolada, que me senti lendo qualquer outro gênero de livro, na verdade mais chegado para heróis de livros de fantasia do que sobrenatural propriamente dito. O que muito agradeço, aliás, já que sou bem medrosa para esse tipo de literatura.
   Vemos um lado de paz, mas também de justiça e luta, o que vai completamente ao oposto do que normalmente se prega a respeito deles.
    Tiana é uma jovem esperta e decidida, que sabe o que deve fazer para manter suas raízes preservadas. 
   Conforme vamos conhecendo mais sobre ela, vendo as decisões que toma, conhecemos também os personagens secundários, que fazem parte do conto original, assim como o Sapo, que aqui é representado pelo vereador Trosch, e a própria Charlote, a mocinha espevitada que aqui é a melhor amiga de Tiana. 
    Eu amei a construção da Charlote, que ficou próximo da personagem da história original: bem maluquinha e sempre pulando de um lado para o outro. 
    Ela e Tiana são melhores amigas. E Charlote, ou apenas Lote, é uma personagem bem interessante, já que ela é uma pessoa rica e filha de um vereador famoso, mas que não liga de ficar entre as pessoas que tem um poder aquisitivo menor que o dela. Pois para ela vale mais o coração. 
   Achei isso sensacional, pois dá um bom contraponto em relação ao “vilão” da história, o outro vereador famoso Trosch. Trosch, ou o Sapo, é o típico político que usa base religiosa para arranjar votos e fazer propaganda. 
  É arrogante, egoísta e preconceituoso, que quer tomar o terreno quilombola de todo jeito, afirmando que “está livrando o mundo de magia negra”, o que toma uma proporção gigante e ganha apoiadores de todos os cantos. 
  Ler essa parte não foi surpresa, visto os acontecimentos que vemos na política ultimamente. Mas isso não quer dizer que seja aceitável, muito pelo contrário. É nojento, sujo e baixo o que ele faz, especialmente sendo comunidades quilombolas parte da História nacional e até patrimônio. 
  É incômodo ler o que acontece nos bastidores da política em nome do progresso, enquanto quem paga o preço são os mais pobres, principalmente se não forem brancos.

“Era ironicamente triste que, um país cuja base era formada por pretos e povos indígenas, que possuía uma Santa padroeira preta, exigisse que seu povo fosse branco.”

  Um amigo do outro lado é curtinho, mas traz muitas discussões sobre homossexualismo, liberdade religiosa e racismo, o que dá um prato cheio para representatividade e você torce por cada mocinho. 

“Quanto mais escuro o tom da sua pele, mais explicações e provas você deveria ter guardadas na manga.”

  Falando em mocinho, eu achei interessante que, ao contrário os outros contos de Femme Fatale, que focam apenas na personagem feminina, aqui a autora focou no casal, então vemos uma parte dedicada e Naveen. 
  Eu achei muito fofinha a conexão dele e Tiana, de como vão construindo o relacionamento e não tem como ser menos previsível. Mesmo assim, eu achei tão amorzinho, que nem reclamo. Eles são lindos demais juntos. 
  Além, eu gostei de poder acompanhar o amadurecimento de Naveen, que vai aprendendo suas lições e crescendo junto de Tiana. O que é genial, visto o pouco espaço que a autora possuía. 
  Aliás, não apenas os personagens, mas os temas abordados e o próprio desfecho foram abordados com tanta delicadeza, tanta maestria, que não tive como não me apaixonar e eleger esse o meu favorito de toda antologia. 
Um amigo do outro lado | Carol Camargo
Foto: Hanna Carolina/Mundinho da Hanna

  Falando sobre a obra em si, a revisão está perfeita, e a história é narrada em terceira pessoa, o que deu uma visão geral de todos os acontecimentos, sem ficar enviesado, o que, particularmente, eu gosto. 
  A capa não poderia ser diferente, com a princesa de perfil, meio de costas, com o vestido que conhecemos do conto na versão da Disney. 
  Mas aqui, Tiana segura o machado de seu orixá, já mostrando o que ela vai ter que enfrentar até encontrar o seu “final feliz”. 
“[…] não havia invernos que durassem para sempre e a luz sempre acharia o caminho de volta para casa.”
  Eu amei como foi abordado o conto, amei os personagens e me senti lendo várias histórias de super-heróis em uma, o que foi sensacional. Juntando tudo, eu só posso dar a nota máxima para esse conto, que me conquistou de primeira. 
          
   



     O que acharam do livro? Já conheciam alguma outra obra da autora? Me contem aí! =)


Postado por:

Hanna de Paiva

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