Olá meu povo, como estamos? Hoje temos resenha de livro “trevosíneo” e nacional por aqui. ‘Vincent’ foi um verdadeiro achado durante as feiras literárias, que apesar de não ter alcançado minhas expectativas, surpreendeu pela ousadia.
Livro: Vincent
Autoria: Vaneza Lopes
Editora: Publix (Independente)
Ano: 2023
Páginas: 140
País: Brasil
Formato: Impresso (disponível no catálogo do Kindle Unlimited até o momento)
Nota: 3.5/5

Vincent é um vampiro que vive tranquilo em sua mansão na região serrana do Rio de Janeiro. Porém, antes de conseguir seu momento de paz, o vampiro precisou encarar a si mesmo, sua solidão e sua própria família.
Dividida em três partes, Vincent apresenta a história do vampiro em momentos diferentes de sua vida, tanto como humano, quanto como uma criatura da noite.
Na primeira parte, Uma companhia para Vincent, o vampiro busca por uma candidata a ser sua noiva. No entanto, o jantar organizado para essa seleção não sairá como planejado. Na segunda, A escolha de Goreth, veremos o passado da governanta e como ela encontrou a pessoa que mudaria sua vida para sempre. E na terceira, Assunto de Família, o vampiro se vê obrigado a reencontrar seu criador e seus irmãos vampiros, além de precisar ajudar Goreth a se livrar de um objeto amaldiçoado.
Um plano de vingança. Participação de bruxas. Encontro com criaturas da noite. Algo escondido no Vale da Lua, Chapada dos Veadeiros. Será que Vincent conseguirá lidar com tantos acontecimentos ao mesmo tempo que encara fatos do seu passado? O que ele fará pela sua família?
Vincent é um vampiro que gosta de viver recluso em sua mansão. Embora tenha paz e sossego para aproveitar a eternidade da melhor forma, ele percebeu que a solidão também marca presença constantemente. Assim, sua melhor opção seria ter uma noiva, com quem compartilharia os seus maiores desejos.
Contudo, a jornada em busca de uma parceira pode remexer em coisas ainda mais antigas, que ele evitava há séculos. Será que vale mesmo a pena remexer em feridas doloridas para evitar a solidão.
‘Vincent’ é um livro nacional, que descobri durante uma feira de livros aqui na minha cidade. Conheci através da própria autora, que falou com tanto afinco sobre o personagem, que não resisti e trouxe para casa. No entanto, só fui ler meses depois, quando o reencontrei na prateleira durante uma faxina da estante.
Fui agraciada com uma escrita fluida e direta, que já ganhou pontos comigo logo de cara. Além disso, o fato de ser ambientado na Região Serrana do Rio de Janeiro me chamou atenção, já que quase não leio livros que tem cenários fora da capital fluminense.
Vincent, por sua vez, é um personagem enigmático. Seu estilo recluso e rabugento chama atenção logo de cara. Afinal, o que aconteceu para que ele escolhesse viver enclausurado dentro de uma mansão tão antiga?
Aos poucos, vamos entendendo seus motivos (e até concordando com a maioria). A narrativa é não-linear, alternando entre passado e presente, para que o leitor junte algumas peças. Assim, sabemos como o protagonista era ainda antes de se transformar em vampiro, bem como sua jornada até os dias de hoje.
A verdade é que o rapaz sempre teve uma vida complicada. Seus pais eram imigrantes e faziam de tudo para ter uma vida melhor para o filho. No entanto, a vida não foi muito gentil com o jovem, que achou na eternidade uma forma de purgar suas dores através de vinganças e o que ele julgava ser justiça.
Aos poucos, Vincent se torna um dos vampiros mais fortes que se tem história, porém isso traz uma espécie de solidão. Seu maior alento é a companhia de Goreth, a governanta com quem tem uma amizade relativamente antiga, levando em consideração que ela é humana e não faz questão alguma de receber o dom da imortalidade.
“O problema das teorias é que, no fim, a prática pode ser bem mais cruel.”
Com o passar das páginas, entendemos também como foi que esse laço de amizade surgiu e se fortaleceu. Eu gostei bastante desse relacionamento deles, pois mostra que nem sempre um vampiro precisa ser o vilão que mata todo mundo.

Ele foi amaldiçoado, porém será que ainda é possível ter sentimentos positivos, como herança de sua antiga vida mortal? Vincent mostra que sim, é possível. Além disso, Goreth é uma pessoa que também não teve uma vida fácil, talvez por isso tenha se identificado com o vampiro logo de cara.
Os dois se entendem por saberem o preço de carregar algumas mágoas nas costas. E não importa o tempo, elas vão continuar doloridas. Contudo, acho que a real mensagem na amizade improvável desses dois é que temos uma escolha de guardar todas para si ou dividir o fardo com alguém que te entende e não vai te julgar.
Em relação ao tema central do livro, eu gostei da trama, mas tenho diversas ressalvas. Para começar, eu vi que na sinopse temos três atos da vida dos personagens principais (Vincent e Goreth). No entanto, acho que criei expectativas demais sobre o desenvolvimento deles e me frustrei.
A primeira parte da trama é centrada no noivado do Vincent, a segunda em traumas do passado e a terceira volta para o presente e fecha o arco (não é spoiler, está na sinopse). Contudo, a forma como foram organizados me pareceram uma sequência de contos aleatórios, que não se conectam entre si. O que me causou estranheza.
“Naquela manhã, o céu estava limpo e eu sentia que minha vida mudaria por completo após o navio partir. Nunca estive tão certo.”
O elenco secundário se torna grande, por conta dos cenários distintos. Dessa forma, no primeiro somos apresentados ao evento da tentativa de festa de noivado do vampiro, que é frustrada por conta de alguns acontecimentos que deram bastante movimento na trama. Então estava contando os segundos para seguir com a leitura e voltar logo para o presente, para amarrar as pontas.
A segunda parte traz fatos bastante reveladores tanto de Goreth quanto do próprio Vincent, que me fizeram torcer ainda mais pela redenção da dupla. Além disso, trouxe muitos outros questionamentos, que me deixaram curiosa e queria saber se confirmariam minhas teorias.

Uma coisa que gostei desse livro foi ter sido apresentada a uma série de personagens do nosso folclore, os quais são tão antigos quanto o próprio Vincent. Achei curiosa a relação de amor e ódio que eles mantinham, especialmente depois de entender os motivos que levaram a tantas trocas de farpas.
Talvez por isso quisesse que eles tivessem mais presença na trama. Porém do jeito como foi finalizado, pareceu que foram “esquecidos no churrasco”, o que é uma pena, já que foram muito bem desenvolvidos.
Porém o balde de água fria vem no terceiro ato, quando percebi que as respostas não seriam dadas, já que a história toma um outro rumo. Fiquei com um imenso “pra quê?” estampado na minha testa, pois não senti que o arco foi fechado. No entanto, talvez nem tudo esteja perdido, já que o epílogo parece ser um gancho para uma sequência.

Não cheguei a perguntar para a autora se teremos mais aventuras de Vincent, mas se tiver, pode ser que nota inicial do primeiro livro aumente no futuro. Porém se tiver finalizado do mesmo jeito que li, será bem frustrante, confesso.
“-Sou alguém fraco que está cansado da sua existência nesse mundo profano.”
Em relação ao livro em si, eu achei a diagramação muito bonita e elegante, assim como os brindes que vieram. As páginas mais grossinhas e amareladas me agradaram demais durante a leitura, além da fonte legível e confortável. A capa é simples, porém objetiva, o que confere pontos positivos para a leitura.
Embora o saldo final não tenha sido como eu esperava, ainda assim indico ‘Vincent’ para que você conheça e tire suas próprias conclusões. Além de fazer votos para que tenha uma continuação que tire o sabor agridoce que tive nesse primeiro momento.