6 de abril de 2024

Guerra dos Mil Povos | Viktor Waewell

Olá meu povo, como estamos? Depois de tanto tempo sem falar com vocês, é muito bom estar de volta aqui no blog do MH, trazendo dicas e opiniões literárias para compartilhar aqui.

Hoje é uma ocasião bem especial, pois além de estar retornando com os posts, trago a resenha de uma das minhas primeiras leituras de 2024, que já ganhou até o título de favorita do ano. Com vocês: ‘Guerra dos Mil Povos’, uma ficção histórica escrita por Viktor Waewell.

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Livro: Guerra dos Mil Povos

Autor: Viktor Waewell

Editora: Independente

Páginas: 512

Ano: 2023

Formato: Impresso

País: Brasil

Uma história de amor e guerra durante a nossa maior revolta indígena, com reconstituição histórica fidedigna, pelo autor do best-seller Novo Mundo em Chamas.
Um guerreiro português que vendeu a sua armadura vem ao recém-descoberto Brasil em busca de uma vida de paz, mas encontra o continente em ebulição. Ele viverá uma nova paixão, ao mesmo tempo em que é arrastado para uma guerra de grandes proporções entre fidalgos escravistas e povos nativos aguerridos.
Um épico arrebatador, com personagens cativantes dos dois lados, num contexto cultural fascinante, no melhor estilo “não consigo parar de ler”.
O conflito é um dos nossos momentos mais críticos, com décadas de batalhas em todo eixo Rio-SP: a Confederação dos Tamoios.

1555 foi uma época de muitas aventuras para os povos europeus. Partindo em busca de novos locais para explorar, chegavam em terras inóspitas e ricas em coisas que eles jamais imaginaram. Assim, surge a ideia de que além-mar é possível obter uma grande fortuna e boa vida para gerações futuras.

Essa era a promessa que muitos portugueses faziam para as pobres almas que se alistavam para trabalhar nos navios e passar meses em alto mar até chegar no Brasil. Chegando aqui, os que sobreviviam de fato conseguiam realizar grandes atos e acumular riquezas.

Porém, toda história tem dois lados e, dependendo de quem conta, pode não ser tão bonita e aventureira assim. Coisa que Afonso e os Tamoios irão descobrir de uma maneira bem dolorosa e inesquecível.

Ficção histórica não é um gênero que eu leia com frequência. Mas quando dou uma chance para livros desse tipo, faço uma verdadeira viagem no tempo e é certo que eu vou me revoltar de diversas maneiras. O que não poderia ser diferente com ‘Guerra dos Mil Povos’.

Fiquei muito feliz com o presente que o Viktor me deu ao oferecer um exemplar de sua mais recente obra. Já havia lido um outro título dele – ‘Novo Mundo em Chamas’ –  e foi uma experiência maravilhosa e muito imersiva. Algo que também era uma promessa com ‘Guerra dos Mil Povos’.

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Como o próprio título já menciona, neste volume somos apresentados a um dos eventos mais marcantes de que se tem história, desde a chegada dos colonos portugueses no Brasil: a formação da Confederação dos Tamoios. Muito provavelmente vocês já estudaram o fato na escola ou enquanto preparavam para o ENEM. No entanto, caso já faça muito tempo que isso aconteceu (um dia a idade chega e ficamos velhos, hehe), segue aqui uma colinha da confederação:

“A Confederação dos Tamoios foi um entre os muitos acontecimentos marcantes da História do Brasil. Caracterizado como um movimento de resistência, a confederação foi chefiada por líderes indígenas do Litoral Norte paulista e sul fluminense. Juntos, eles organizaram uma revolta contra os colonos portugueses, que além de explorar o território, buscavam escravizar a mão de obra indígena.
A Confederação dos Tamoios ocorreu entre 1554 e 1567 e reuniu diversos caciques. Todo o episódio é marcado por uma série de eventos: acordos, casamentos, conflitos intensos, fugas, mortes e escravidão.” [Fonte]

Contudo, mesmo que a gente estude e se revolte com tudo o que aconteceu e está nos livros de História, a verdade é que nunca chegamos a nos aprofundar no assunto por n motivos. Os mais comuns são falta de tempo e muito conteúdo para dar conta durante o bimestre/semestre escolar. Assim, ficamos mais ligados em pontos chaves e todo o resto segue ignorado.

Uma grande chance de aprender de forma mais aprofundada é exatamente quando assistimos algum documentário ou lemos em livros especializados. No caso, a ficção histórica também pode ajudar bastante no processo, com um toque a mais de emoção. Exatamente o que aconteceu com o livro do Viktor.

Os capítulos são curtos e a narrativa é em terceira pessoa, o que nos promove uma experiência mais fluida e uma noção mais ampla da trama. Mesmo sendo uma visão de ângulo maior, os núcleos se centralizam em dois principais blocos: o lado dos portugueses tem a participação principal de Afonso e Heloísa, duas pessoas que sofreram muito nessa vida e vieram para o Brasil acreditando na promessa de paz e prosperidade. No entanto, quando chegam aqui, percebem que trocaram seis por meia dúzia e que só se dava bem mesmo quem era mais esperto ou mais sangue frio para ignorar tudo ao seu redor.

“Temos cadeia, igreja, Câmara, pelourinho e a minha caserna. É o que o governador chama de ordem no mundo ou, como eu prefiro, a vontade de Deus.”

Já do lado dos nativos, a história é protagonizada por Kayike e Aiyra, gêmeos tupinambás, que estão por dentro de tudo que acontece dentro de sua tribo. Filhos do cacique Pindobuçu, esses dois são o equilíbrio perfeito entre força e inteligência.

Enquanto o rapaz quer resolver tudo na força bruta, para mostrar seu valor como guerreiro digno de suceder o pai um dia, a moça é uma linda índia, mas também com uma mente brilhante de estrategista. Assim, é fácil trabalhar como infiltrada entre os portugueses e se fingir de inocente, quando na verdade busca uma forma de mandar os europeus de volta para onde nunca deveriam ter saído.

Isso porque muitos fatos que são relatados nos livros de História são bonitos e heroicos até a página 2. Dependendo do ângulo que se olhe, a ação dos padres jesuítas juntos aos índios pode ter sido a salvação das almas perdidas, mas também um grande e inesquecível ato de terrorismo (diria até genocídio) religioso.

Enquanto os brancos vinham com suas roupas pesadas, armas de fogo e conhecimento tecnológico avançado (para a época), os nativos só queriam manter sua paz e tradições para gerações futuras. Até porque já havia muitas disputas e rixas entre as próprias tribos, o que menos precisavam era mais um choque cultural e imposição de costumes que ninguém pediu

E as coisas só foram piorando na capitania que abrangia os territórios hoje conhecidos como Rio de Janeiro e São Paulo. A Baía de Guanabara era terra dos Tupinambás e Temiminós, as mais temidas pelos colonos, por serem as mais fortes e destemidas.

Enquanto isso, a cidade de São Paulo começava a tomar forma, com a benção do cacique Tibiriçá e mais alguns apoiadores de uma união pacífica entre os brancos e indígenas. Mas nem tudo eram flores, pois os colonos entendiam camaradagem como inocência da qual deveriam se aproveitar da pior forma.

“Achei que o Novo Mundo seria um lugar para uma segunda chance. Como os franceses, imaginei viver em paz. Um tolo que agora quer sobreviver, sem nem saber para quê.”

Com atos de violência aqui e ali, logo os colonos passaram a ser vistos como um inimigo em comum a ser combatido a todo custo. Assim, a Confederação dos Tamoios surge. Afinal, mesmo que algumas tribos sejam rivais, a máxima de “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” nunca fez tanto sentido.

Aos poucos, vemos o desenrolar dos acordos e estratégias, bem como as consequências de muitos atos, tanto bons quanto ruins. O que me rendeu uma montanha russa de emoções, de modo especial quando o destino de Afonso e Heloísa se cruza com o dos gêmeos Tupinambás.

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Começando por Afonso, é um rapaz que tem diversos fantasmas de seu passado, os quais ainda o assombram cada vez que fecha os olhos. A vinda até o Brasil seria sua redenção e uma promessa de vida digna até a velhice. Contudo, o que encontrou aqui foi o completo oposto.

Mal chegou e já foi sendo convocado pelo governador para fazer as mesmas coisas pelas quais se arrependia. Ele terá sua chance de enxergar quem é o verdadeiro inimigo no momento em que Ayira lhe mostrar o outro lado da moeda.

Por sua vez, Heloísa queria sair da vida de prostituição e viu no paraíso de além mar uma chance para recomeçar. Mas só foi recebida com desprezo e antipatia pelos homens, que a tratavam como sinônimo de azar. Além disso, foi só chegar aqui e viveu um pesadelo, já que homem babaca e inseguro só muda de endereço.

“O que eram as histórias nas quais os homens e mulheres acreditavam? Algumas sobre deuses. Dúvidas a voar com o vento. Iriam perecer e apodrecer e seriam esquecidas, apenas para serem relembradas depois.”

Ler essas passagens foi como um soco no estômago, pois é impressionante perceber o quanto os séculos passaram, mas a mentalidade das pessoas continua a mesma. Mulheres continuam passando por pesadelos pelo simples fato de serem mulheres, enquanto homens continuam lutando por poder às custas dos mais fracos e ignorantes.

Do lado dos nativos, minha personagem favorita foi, de longe, a Ayira. Seu nome significa “aquela que não tem dono” e ela faz bem o seu papel. Não apenas a jovem, mas adorei a atuação do elenco indígena como um todo. Aprendi bastante sobre diversos costumes, danças, fogueiras e até o motivo de cada pintura e eles mudarem de nome o tempo todo.

Em especial com Birigui, um menininho que tem o sonho de ser o sábio da tribo e já começa desde cedo a buscar as próprias histórias para contar. Eu me apaixonei por esse pequeno e me via sorrindo a cada vez que ele dava um passo rumo ao seu sonho.

Apesar da pouca idade (é o irmão mais novo de Kaiyke e Ayira), ele viu tanta coisa nesses meses, que é de se esperar um amadurecimento precoce. Se eu pudesse entrar no livro e estar naquele cenário, faria questão de visitar as rodas que ele reunia, só para ouvir suas palavras e ensinamentos profundos.

Além disso, mesmo sendo uma ficção histórica, é difícil saber quem é real ou fictício. Mesmo que o autor traga uma lista no final, contando quem de fato existiu ou foi criação dele, confesso que preferi embarcar na leitura achando que todos existiram e deixaram sua marca na nossa história.

Voltando a falar de Afonso e Ayira, esses dois foram me ganhando a cada capítulo. Conforme o rapaz adentrava no universo dos nativos e percebia que eles não tinham nada de selvagens (muito pelo contrário), era como se o próprio leitor também tivesse esse aprendizado e saísse da caixa.

Me vi torcendo por eles, sorrindo a cada interação e queria pegar uma espada ou um arco e flecha para combater ao lado da dupla. Outra coisa que gostei bastante foi acompanhar os bastidores da batalha que se anunciava.

Era interessante ver como cada povo tinha sua forma de lutar contra um inimigo em comum. Ao mesmo tempo, deu para notar que estratégias de guerra são como um jogo de xadrez e vence quem tiver a melhor tática, não importa qual seja.

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Então, tive a emoção de laços familiares e amizades inóspitas se formando, bem como a ideia de que todo mundo pode trair todo mundo. Cada capítulo era um espaço para uma reviravolta, o que o autor aproveitou com maestria e me fez de trouxa até os 45 do segundo tempo.

“Uma história para seguir com o vento, declamada e sussurrada pela eternidade.”

O desfecho, por sua vez, é crível e condizente com todo o arco apresentado anteriormente. Nenhum personagem ficou de fora, e olha que eram muitos. Gostei bastante do desfecho de alguns vilões (apesar de achar que sofreram foi pouco), que me deram a sensação de alívio e justiça para quem merecia. Assim como também terminei a leitura aos soluços de tanto chorar e o coração em luto, por alguns acontecimentos que estavam na minha cara, mas eu queria que não fosse assim.

Apesar de ter pensado em um fechamento diferente, dado que eram personagens fictícios e poderiam ter um “final feliz”, eu acredito que o autor queria mostrar que a realidade é daquele jeito mesmo. Assim, não importa o que você quer; às vezes a vida nos dá uma rasteira e temos que lidar com as consequências disso. Precisei de muita conversa com o escritor e uns dias para me dar conta dessa característica, o que rendeu diversos pontos para a leitura, sendo até um dos meus favoritos do ano

Falando sobre o livro em si, ‘Guerra dos Mil Povos’ foi lido em formato físico. Então, posso falar que a impressão foi muito bem feita, com páginas grossinhas, amareladas e uma fonte legível para a leitura.

A capa é comum, mas eu adoro a paleta de cores usada, pois me lembra os quadros dos museus que costumo visitar e guardam obras de arte que retratam essa época. O próprio desenho do cenário é um quadro, trazendo a Baía de Guanabara (Rio de Janeiro) como centro e ajudando o leitor a embarcar na aventura.

Em resumo, esse livro foi uma experiência imersiva demais para mim. Não saí da mesma forma que comecei e posso dizer que aprendi bastante, como leitora, como pessoa e como cidadã. Recomendo de olhos fechados e torço para que ‘Guerra dos Mil Povos’ tenha mais fama no meio literário.

Vocês já leram esse livro ou algum outro do autor? Gostam de ficções históricas? Me contem nos comentários!

Postado por:

Hanna de Paiva

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