24 de February de 2026

Herança Macabra | Verónica A. Llaca


Olá meu povo, como estamos? O projeto 12 Livros para 2026 está rendendo por aqui. Hoje eu trago a segunda resenha, com minhas impressões sobre Herança Macabra, da Verónica A. Llaca.

Livro: Herança Macabra

Autoria: Verónica A. Llaca

Tradução: Carol Aquino

Editora: Faro Editorial

Ano: 2025

Páginas: 207

País: México

Formato: Impresso

Nota: 4/5

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QUANDO A MALDADE PERCORRE AS VEIAS,

O SANGUE DOS INOCENTES ESCORRE PELAS MÃOS

Na fúnebre atmosfera do México dos anos 1940, as ruas de uma cidade tornaram-se palco dos atos macabros de Felícitas Sánchez Aguillón. Apelidada de “A Ogra do bairro Roma”, a parteira corrompeu sua nobre profissão assassinando dezenas de crianças sem deixar rastro de humanidade. A captura e subsequente condenação de Felícitas marcaram definitivamente a consciência coletiva da comunidade.

Décadas mais tarde, Ignacio Suárez, um escritor da era contemporânea, tropeça em um legado de brutalidade que se recusa a permanecer enterrado. Fotografias enigmáticas de mulheres mortas chegam às suas mãos, trazendo o passado cruel para o seu mundo de palavras. As imagens carregam uma sinistra coincidência com cenas presentes em suas obras, obrigando-o a confrontar o fato de que o horror que imaginava escrever agora é apresentado em forma real com novas vítimas cruzando o seu caminho.

Com o ressurgimento de pistas que remetem à falecida Felícitas, enigmas começam a tecer uma ponte entre eras e segredos ocultos na trama histórica. O enredo torna-se ainda mais intrincado quando a inesperada morte de uma figura central na investigação sugere que o perigo é uma entidade onipresente, um perseguidor incansável.

O único artefato que restou é um manuscrito envolto em mistério, potencialmente ostentando a chave para desvendar verdades sinistras e estagnar a continuidade do derramamento de sangue. Ao navegar entre a história de Felícitas e os temores atuais que consomem Ignacio, Verónica Llaca nos conduz ao precipício de uma escuridão reveladora, onde as facetas mais sombrias da natureza humana emergem despidas de camadas de pretensão.

O leitor é convidado a mergulhar neste labirinto onde eventos de épocas distantes se entrelaçam numa valsa macabra, levantando a questão: Por que será que certos eventos sombrios emergem, de tempos em tempos, assombrando-nos persistentemente como se fossem inevitáveis?

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

A década de 1940 foi marcada por mortes muito macabras, envolvendo bebês recém-nascidos e abortos malsucedidos. A responsável por todos os crimes ficou conhecida na mídia como a Ogra do Bairro Roma, que morreu tempos depois.

No entanto, esse fantasma do passado volta para assombrar os moradores: uma onda de assassinatos volta a acontecer, incluindo detalhes que remetem aos livros de Ignácio Suarez, um autor famoso de suspenses. Porém o mais assustador é que as investigações parecem também resgatar os crimes cometidos pela Ogra. Mas ela está morta. Então é tudo uma coincidência? Ou tem alguém querendo trazer de volta os requintes de crueldade que herdou da família?

Eu nunca tinha ouvido falar em ‘Herança Macabra’ até ganhar ele durante um sorteio de evento literário. A sinopse me agradou e resolvi colocar entre os escolhidos para o projeto desse ano.

Além disso, eu sabia que tinha algumas poucas resenhas dele no YouTube, porém deixei para assistir depois da leitura, para não me influenciar. E foi um grande acerto, já que a experiência foi positiva e me surpreendeu muito.

A narrativa é não-linear e traz um ponto de vista mais geral de 1985, contando sobre os assassinatos de duas jovens deixadas em uma situação peculiar, cada uma diante de uma funerária distinta. Conforme as investigações avançam, os detetives percebem que os detalhes da cena na verdade foram relatados anos atrás, nos livros do famoso autor de suspense Ignácio Suarez.

Dessa forma, quem seria o melhor suspeito, se não o escritor? Afinal, ele já tinha escrito o que pensava. Concretizar não seria tão difícil seria? Essa suspeita logo vaza para os jornais, que massacram o autor e o retratam como um assassino cruel e perigoso, mesmo que ele alegue inocência.

A verdade absoluta de como foi nossa infância não existe. A memória é uma farsa. A vida é o que contamos, por isso eu gosto da ficção.”

A única pessoa que parece acreditar nele é Elena, a namorada, que precisa lidar com toda a pressão, especialmente quando aparecem provas que só confirmam ainda mais a suspeita da polícia.

O mais curioso é que esses assassinatos parecem ter uma conexão com algo ainda mais marcante e assustador, que abalou o Bairro Roma na década de 1940. Conhecida como a Ogra do Bairro Roma, Felícitas Sanches foi matéria de muitos jornais pelo mundo todo, acusada de fazer abortos clandestinos e cometer diversos infanticídios nos fundos de sua própria casa, com o apoio do marido.

O hábito não custava barato e eles tinham uma boa vida, custeada por clientes ricas, que faziam de tudo para evitar o escândalo de uma gravidez indesejada na época. Contudo, a forma como isso acontecia era assustador e beirava a tortura, conforme vamos entendendo em uma narrativa feita por quem parecia ser uma testemunha direta dos fatos.

A identidade do narrador do diário é um mistério e pode ser qualquer pessoa que está no elenco do presente (ou não). Apesar dessa dúvida me corroer com o passar das páginas, eu fiquei extremamente incomodada com as cenas gráficas que esse diário contém.

A partir dele, conhecemos os relatos das mulheres que se submetiam aos procedimentos. Cada uma tinha seus motivos e logo me solidarizei com todas elas. O intuito dessa resenha não é militar sobre se aborto é ou não um procedimento aceitável. Mas acho que cada pessoa sabe o que é melhor para si e como quer cuidar do seu próprio corpo.

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Assim, é totalmente compreensível a preocupação (e até o desespero) das clientes de Felícitas. E ver a forma fria e calculista como ela trata as pacientes é tão assustadora, que minha vontade era entrar no livro e resgatar todas aquelas mulheres.

O mesmo posso falar sobre como ela cuidava dos bebês, em cenas que me deram um nó no estômago e precisei parar diversas vezes, fechar o livro e fazer outra coisa, para evitar pesadelos. E olha que eu sou já gabaritada em leitura de suspense.

Estava me perguntando o motivo de tanta brutalidade e depois descobri que parte dessa história realmente aconteceu. Então posso classificar ‘Herança Macabra’ com um pezinho no true crime. Talvez por isso não seja uma leitura indicada para todos os públicos.

Talvez nossa individualidade esteja no modo de morrer, e não nas digitais, nem na fisionomia, nem no DNA. Talvez estejamos aqui para encontrar nossa própria maneira de fugir desse mundo.”

Além disso, por ter os capítulos alternativos entre passado e presente (na história), vamos pegando detalhes de cada parte da narrativa, para tentar criar as conexões. Por ser mais detalhado e denso, os diários do desconhecido deixam a leitura bem arrastada no início.

Por isso, precisei ir lendo com calma, também para digerir tudo que estava sendo relatado. A escrita da autora é bem imersiva, o que me ajudou bastante a visualizar as cenas, tornando a experiência ainda mais perturbadora.

Mas depois a leitura engatou e não consegui mais parar, especialmente quando Elena decide provar a inocência de Ignácio e começa suas investigações. Porém não deixei de ficar revoltada com uma série de coisas e comentários que refletem uma sociedade extremamente machista, misógina e vergonhosa que o país vivia em 1985 (e que se reflete no mundo inteiro nos dias de hoje, infelizmente).

Conforme as respostas surgem, tanto Elena quanto o leitor tomam tantos tapas na cara sem luva de pelica, que é impossível ficar bem depois de fechar o livro. Me rendi a esse livro, não apenas pelo mistério em si, mas pelas reflexões e fortes críticas que traz.

Herança Macabra
Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Os mortos não se vão, os mortos ficam; as pessoas falam dos mortos como se fossem seus donos. Que mortos nos pertencem? Os que morrem sozinhos ou os que matamos?”

No entanto, mesmo sendo uma narrativa eletrizante e que me prendeu, me frustrou com um final meio blé. Sendo bem sincera, pela estrutura da narrativa, eu esperava ou um desfecho mais eletrizante, ou até mais denso, como foi no início. Mas acho que a autora quis dar um toque mais suave para a conclusão, que não encaixou tão bem assim e me deu um gosto agridoce.

Por isso, não vai levar a nota máxima. Contudo ainda recomendo a leitura, por sair da bolha EUA X Reino Unido.

Falando sobre o livro em si, li em versão física e gostei da diagramação. Ela é simples, objetiva e tem fonte agradável para leitores míopes (meu caso). A revisão bem feita ajudou na experiência positiva. Mas confesso que não gostei tanto assim da capa. Embora tenha poucos elementos, para deixar também mais objetiva, acho que não combinou tanto assim com a atmosfera sombria que a história oferece.

Você já leu esse livro, ou algum outro da autora? Gosta de livros que tenham um pezinho no true crime? Me conta nos comentários!

Postado por:

Hanna de Paiva

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