6 de maio de 2024

Muitas Águas | Madeleine L’Engle

Olá meu povo, como estamos? Hoje eu trago a resenha de ‘Muitas Águas’, o quarto volume da série infanto-juvenil ‘Uma Dobra no Tempo’, escrita por Madeleine L’Engle.

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Livro: Muitas Águas

Autoria: Madeleine L’Engle

Tradução: Érico Assis

Editora: Harper Collins

Ano: 2018

Páginas: 304

País: EUA

Nota: 3/5

Sandy e Dennys, os gêmeos da família Murry, sempre foram práticos, realistas e nunca prestaram muita atenção às conversas dos pais cientistas sobre coisas altamente teóricas como tesseratos e farândolas. Mas, após um acidente no laboratório do sr. e da sra. Murry, algo acontece com eles que desafiará drasticamente suas capacidades de crer no impossível. Com um desastre à vista, será que os gêmeos conseguirão encontrar uma maneira de voltar à realidade?

A família Murry é conhecida por seu gosto pela ciência e a busca pelo conhecimento. No entanto, nem todos acham interessante passar horas debatendo sobre termos complicados de física quântica na sala de jantar. Os gêmeos Sandy e Dennys sempre ficam isolados num canto quando as longas conversas acontecem, e acham uma perda de tempo ver tanta teoria quando existem mais com o que se preocuparem no mundo.

A última conversa desse tipo mencionava uma pesquisa secreta de seu pai, envolvendo as partículas virtuais e seu potencial para ligar pontos no espaço-tempo. Embora não tenham dado muita atenção no momento, isso está prestes a mudar, quando em um dia frio de inverno os rapazes entram no laboratório e esbarram no equipamento ultrassensível que manipulava as partículas. O resultado? Algo que só alguém com a mente mais aberta seria capaz de compreender.

“[…] Assim, Sandy ainda não tinha ideia de onde ele e Dennys haviam ido parar com sua insensatez.”

Eu gosto muito da série ‘Uma Dobra no Tempo’, por conta da forma como a autora insere alguns conceitos científicos verdadeiros e amarra com outros mais fantasiosos. Então, estava ansiosa para ler o último volume, por saber que seria protagonizado pelos personagens que menos falam na família Murry, os gêmeos Sandy e Dennys.

Eles são os “irmãos do meio” entre Meg (mais velha) e Charles Wallace (caçula) e parecem não ter herdado os genes de amor pela ciência como os outros. Deste modo, mesmo que estejam inseridos no meio de alguma forma – estudando para cursar Medicina na universidade – não acham graça no hobby de seus pais em incentivar debates de conceitos filosóficos complicados durante o jantar.

Assim, embora os meninos saibam o que cada parente pesquisa, não acham interessante ir a fundo, pois logo se desligam e ficam em seus próprios pensamentos e resmungos sobre perda de tempo. Mas, isso vai mudar agora.

Em um dia de inverno rigoroso, eles acabam entrando no laboratório do pai, em busca de chocolate quente, que a mãe tinha o hábito de fazer esquentando no bico de Bunsen. Mas esbarram por acidente em um equipamento que estava analisando a presença de partículas virtuais e, num estalar de dedos, não estavam mais em casa.

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Como as partículas tinham ligação com o espaço-tempo, a questão não é saber onde estão, mas também quando, para poderem enfim voltar para casa e seu chocolate quente. Além disso, os Murry mais práticos e céticos precisarão aprender algumas lições antes de encontrarem o caminho para casa. Porém, isso só será possível com uma mente bem aberta.

“– Não sei nem para que lado fica minha casa. Não sei bem como chegamos aqui e tenho ainda menos certeza em relação a como vamos voltar para casa.”

Eu já esperava que esse volume fosse diferente de todos por causa dos gêmeos, que tem uma personalidade a la Dona Anésia. Mas, acho que isso só funciona quando a pessoa já é adulta e ciente de que não pode controlar tudo. No caso de Sandy e Dennys, só vi dois adolescentes emburrados e egoístas num canto, tentando bancar os heróis de si mesmos e sem nem sequer dar uma chance ao que estava cercando eles.

Isso tornou os capítulos maçantes de ler, em especial por serem longos. Eu revirava os olhos a cada reclamação que eles faziam, sem nem ao menos tentar buscar a própria saída.

Quem salva o livro mesmo é o elenco secundário, que traz informações importantes sobre o cenário. A começar pelo povo que recebe os gêmeos logo que são transportados. Com uns toques de ‘As Aventuras de Gulliver’ e um mergulho na Bíblia, os meninos são tratados como gigantes, pois são cercados por humanos e mamutes tão pequenos, que mesmo os idosos batem na sua cintura.

Além disso, o povo tem uma relação muito estreita com unicórnios, serafins e neflins, que estão constantemente em cena e agem ora como guardiões, ora como semeadores do caos. Nessa mistura infinita de elementos, os protagonistas ficam em dúvida constante sobre o que é real ou um sonho muito louco.

Em adição, o elenco de anjos e demônios é consideravelmente para um livro pequeno. Apesar de ter me perdido entre tantos “els”, devo destacar o papel dos serafins Aariel e Admael. Eles foram os únicos a prestar atenção no elemento fora do comum do povoado e se dispuseram a ajudar os gêmeos a voltarem para casa.

No entanto, nem mesmo com a ajuda angélica seria uma missão fácil. Isso porque o fato de Sandy e Dennys não acreditarem em nada disso dificultava diversos caminhos. Mas é interessante ver como certos paradigmas podem mudar de acordo com a necessidade.

“– Muitas águas não extinguem um amor, tampouco dilúvios hão de afogá-lo.”

Conforme os capítulos passavam, pude ver como os gêmeos pararam de reclamar da vida e passaram a se mexer um pouco mais. Só uma coisa não mudou entre eles e ainda me incomodava bastante: Sandy não fazia nada se não tivesse a aprovação de Dennys, como se fosse um líder que ninguém elegeu.

Embora estivessem crescendo e amadurecendo (o que contou muitos pontos, aliás), essa peculiaridade deles ainda me irritava e eu revirava os olhos a cada vez que Sandy ficava prostrado em clima de “meu mundo caiu”, sendo que poderia salvar a si mesmo em diversos momentos. Assim, eu ficava ansiosa para os capítulos acabarem logo e eu ir para a parte em que o Dennys fazia alguma coisa e salvava o dia.

Felizmente, não era a única que tinha vontade de dar uns catiripapos nesse rapaz. O Vô Lameque, um dos patriarcas do povoado, faz esse trabalho e muito bem, por sinal. O velhinho poderia ser fraco para muitas coisas, mas sua mente era bem afiada e nada passava batido por ele. De longe foi o melhor personagem e ensinou muitas lições até para mim.

“– Eu acredito em muito mais do que antes – concordou Dennys. – Mesmo que não possamos mudar a história, nós, eu e você, não somos mais os mesmos.”

Quem também se destaca são Tiglá (humana) e Ugiel (neflin). Ambos realmente se merecem. Mostraram bem a que vieram ao mundo. A primeira é bonita e sedutora, acha que tudo se resolve mostrando seus atributos a quem lhe der mais garantias.

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Por sua vez, o neflin está desconfiado da chegada dos gêmeos gigantes e acha que é tudo parte do plano de Deus para exterminar os neflins da face da Terra. Essa obsessão o leva a criar uma conspiração para eliminar os inimigos, onde os humanos seriam meros peões.

Nesse clima de guerra, Sandy e Dennys parecem finalmente acordar para a vida, além de perceberem que nem tudo no mundo é explicado de modo prático. Muito menos o que está em nosso coração. Isso porque, mesmo com uma ameaça de desaparecimento da existência, ainda há espaço para entender novos sentimentos e tentar lidar com eles.

E Ialí é responsável por isso. A moça pode ter mais de 100 anos de vida (sim, o povo pequenino vive bastante), mas mal sabe das coisas do coração. Isso leva a diversos momentos de questionamentos interessantes, sobre se existe uma idade certa para fazermos as coisas que queremos. Claro que não viveremos um século (quem sabe a tecnologia ajude nisso um dia), mas o que quero dizer é que nunca estaremos velhos para entender a nós mesmos e aprender nossas lições.

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Isso traz uma trajetória diferente à história que, apesar de encerrar da mesma forma abrupta e mirabolante que vimos nos outros volumes – afinal é voltado para um público mais jovem –, achei que trouxe mais ensinamentos e me fez refletir. No entanto, isso teria funcionado melhor se a autora tivesse amarrado melhor algumas pontas em vez de encher linguiça em cenas desnecessárias. Isso teria reduzido muitas páginas e traria a mesma emoção (se não mais) do que a que tive.

Apesar de ter sido o volume que menos gostei, ainda assim recomendo a leitura. Afinal, não funcionou para mim, mas pode dar certo com você. Falando sobre o livro em si, a Harper sempre capricha nessas edições. A minha é em capa dura, seguindo o padrão dos volumes anteriores.

As cores em tons de roxo e na estante dão um belo contraste, como se fosse um pedaço de cada galáxia do universo. A revisão está bem feita e a fonte legível à leitura. Além disso, a diagramação familiar e as páginas mais grossinhas e amareladas ajudaram numa experiência agradável de leitura.

Agora me conte: vocês já leram esse ou algum outro volume da série? Gostam de histórias nesse estilo?

Texto revisado por Emerson Silva

Postado por:

Hanna de Paiva

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