16 de abril de 2024

O Último Sorriso na Cidade Partida | Luke Arnold

Olá meu povo, como estamos? Sejam todos bem vindos à casa nova do Mundinho da Hanna! Para comemorar ao estilo de um blog literário de respeito, que tal trazer uma resenha? Hoje, trago minhas impressões sobre ‘O Último Sorriso na Cidade Partida’, escrito por Luke Arnold. 

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Livro: O Último Sorriso na Cidade Partida

Autoria: Luke Arnold

Tradução: Giu Alonso

Editora: Trama

Ano: 2021

Páginas: 304

País: Inglaterra

Nota: 5/5

Meu nome é Fetch Phillips, exatamente como está escrito no vidro do meu escritório. Tem três coisas que você deveria saber antes de me contratar:
Trabalhar sóbrio custa mais caro.
Meus serviços são confidenciais.
Não trabalho para humanos.
 
Nada pessoal, eu mesmo sou humano. Mas, depois do que aconteceu, não são os humanos que precisam da minha ajuda. Só preciso de um único caso de verdade, apenas uma chance de fazer alguma coisa boa. Porque a magia nunca mais vai voltar… e por minha culpa.

Sunder City é uma cidade bastante populosa e tem tudo o que se espera: escolas, prefeitura, cinemas, rodovias, etc. No entanto, ela tem algo a mais (ou ao menos tinha): magia. Graças a esse diferencial, seres humanos e míticos conviviam harmoniosamente e ainda estariam assim, não fosse pela Coda – um evento que extinguiu os poderes das criaturas mágicas e as tornou mortais.

Após o acontecido, a relação entre os povos nunca mais foi a mesma e o clima de tensão é constante. Em meio a eles, está Fetch Phillips, um ex-integrante do Exército Humano e que hoje ganha a vida como detetive particular. Apesar de não ser querido por nenhum dos moradores de Sunder City, é a ele que recorrem quando precisam resolver um caso misterioso, como o que está prestes a bater em sua porta.

O investigador é contratado para descobrir o paradeiro do vampiro idoso Edmund Rye, um professor de Ensino Fundamental que foi declarado desaparecido por seus colegas de trabalho. Contudo, o caso se desenrola o bastante para cruzar com um semelhante, envolvendo a jovem sereia January Gladstone, que estudava na mesma escola em que Rye trabalhava.

Os desaparecimentos teriam algo em comum? Será que ambos poderão ser encontrados? É o que Fetch Phillips vai tentar descobrir. O problema é que a investigação pode esbarrar em certos casos que envolvem seus próprios fantasmas, dos quais o investigador jamais se libertou. Mas agora precisará ser forte para lidar com as consequências das respostas que vai encontrar.

“Eu era jovem e cheio de energia e tudo que via era uma revelação. Agora o mundo estava velho e destruído, e eu sabia no meu coração que a culpa era minha. Mas isso… Isso era novo? Achei que estava velho demais para algo novo.”
Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

‘O Último Sorriso’ foi uma grata surpresa, que tive o prazer de receber aqui em casa alguns meses atrás. A editora Trama me mandou alguns presentes no ano passado, incluindo os casos de Fetch Phillips. Porém, eles enviaram o segundo volume, que ficou encalhado aqui na estante até que eu soubesse qual era o primeiro.

Após descobrir, fiquei muito feliz ao ganhar de presente de amigo oculto, realizado pela Carol do Pequena Jornalista. Dessa forma, pude enfim saber como tudo começou e posso dizer que foi um bom início.

A narrativa é em primeira pessoa e vemos os acontecimentos pelo ângulo de Fetch. Ele é um protagonista fora da caixinha, com uma queda considerável pela bebida e está sempre disposto a fazer justiça, contanto que não seja para os humanos. Apesar de irônico, dado que ele é humano também, conforme vamos lendo a história e nos inteirando dos fatos, é fácil compreender (e até concordar) com seus motivos.

O personagem tem um humor ácido e age como se tivesse sempre uma nuvenzinha chuvosa sobre sua cabeça. Além disso, ninguém na cidade vai com a cara do rapaz, apenas toleram sua presença e torcem para que ele vá embora no primeiro momento.

Ao longo dos capítulos, vamos entendendo o porquê. Eis que Sunder City nunca mais foi a mesma desde a Coda, o evento que levou embora a magia e também a alegria de todos os habitantes. Como resultado, as criaturas místicas foram obrigadas a trabalhar para se sustentar, como qualquer reles mortal humano.

“Eu só tinha trinta e poucos anos, mas estava velho. Não se mede idade em anos, se mede em lições aprendidas, erros repetidos e na dificuldade de forçar alguma esperança no seu coração. Velho só significa insensível, cínico e cansado. E, minha nossa, como eu estava cansado.”

Fetch sabe muito bem o que levou a cidade por esse caminho. Embora seja um grande acontecimento, não é algo do qual todos se orgulham. Em adição, o detetive tem seus remorsos e se sente culpado pela Coda, agindo como se carregasse o mundo nas costas e nunca vai se libertar do castigo que lhe infligiram (ou que ele mesmo se infligiu). Assim, ele tenta expurgar seus pecados trabalhando para as criaturas que mais sofreram com a extinção da magia.

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Seu escritório é tão sombrio quanto o dono. E é dentro dele que vemos os mistérios sendo apresentados. Eis que aparece um homem de hábitos bastante peculiares, alegando estar preocupado com o desaparecimento de seu amigo, o professor Edmund Rye – um velhinho querido por todos na escola e que sumiu sem deixar vestígios. O caso seria bem tranquilo de resolver, a não ser pelo fato de que a vítima é um vampiro, uma das raças mais reclusas e difíceis de se obter qualquer informação – que dirá encontrar o paradeiro de algum deles.

“Ninguém dava a mínima para o ódio que eu tinha de ser da mesma raça que esses monstros. Um humano reclamando de outros humanos era tão entediante quanto a água que corre pelo esgoto.”

Mesmo assim, Fetch se comove com a história e decide ajudar o cliente. Assim que começa a investigar, no entanto, o detetive se depara com um segundo desaparecimento, o da jovem January, aluna da mesma escola em que Rye trabalhava. Existe uma eterna dúvida sobre a possível relação entre ambos os sumiços, a qual se mantém por boa parte do livro e deixa o leitor ávido por respostas.

O protagonista faz um bom trabalho de investigação. Parece que o fato de estar sempre bêbado o torna mais ciente dos fatos e deixa com a mente mais aberta para o que pareceria inacreditável a qualquer outra pessoa. Contudo, as respostas são dadas da mesma forma como tudo começou, lenta e pacientemente.

O que já era esperado, já que o autor é inglês e seguiu os padrões dos romances policiais de seu país. Embora tenha ficado com o pé atrás no começo, ‘O Último Sorriso’ segue um caminho contrário ao que vi nos últimos tempos em romances europeus. Então, o detetive é sagaz e sabe exatamente o que procura, sem deixar que qualquer pista passe batido, o que confere bons pontos para a leitura e me deixou mais curiosa, querendo desvendar o mistério junto a ele.

“[…] Os heróis de verdade estão no buraco. E ainda bem. É melhor que não vejam o que fizemos com este mundo.”

Ao mesmo tempo em que acompanhamos as investigações, temos vislumbres do próprio passado de Fetch. Assim, podemos conhecer um pouco mais do personagem e formar uma opinião a seu respeito. E o que vi foi alguém que consegue fazer o seu trabalho, mas também precisa lidar com seus próprios problemas e questionamentos. O que torna o detetive mais crível e próximo da realidade.

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Entretanto, é também nessas memórias do passado que podem estar respostas cruciais do que aconteceu com a cidade e talvez explique os desaparecimentos. Isso porque as respostas estão nos pequenos detalhes e toda informação conta. Porém, mesmo com uma narrativa mais lenta e uma investigação apurada, ainda é possível ser feito de trouxa conforme os capítulos se desenrolam.

O autor tem uma escrita fluida e sem rodeios. Além disso, o fato de Fetch ser o narrador me fez dar muitas risadas ao longo da leitura, o que me manteve mais imersa e comovida com a sua trajetória. Acabei me identificando com seu humor sempre ácido e, sinceramente, se estivesse em seu lugar e passasse por tudo o que ele passou, também seria assim.

Além disso, ao conhecer o elenco secundário, percebi que o humor sombrio é um requisito para ser cidadão de Sunder City. Ninguém tem vontade de ser feliz e qualquer tentativa em um caminho oposto pode terminar muito mal.

A verdade é que a Coda não levou apenas a magia da cidade, mas a alegria e vontade de viver de todos, que agora apenas resistem e se adaptaram a um modo de vida indesejado. O clima noir completa o cenário e deixa uma brecha para qualquer pessoa mostrar seu lado real, sem precisar se esconder atrás de um sorriso forçado.

Dessa forma, ninguém é 100% bonzinho ou malvado. Todos são espertos, atentos e capazes de qualquer coisa para se darem bem. Mas também precisam lidar com as consequências de seus atos, especialmente quando Fetch esbarra em segredos milenares, que podem ser a porta de um mistério bem maior que os desaparecimentos que investigava antes. Por conta disso, o desfecho é aberto e traz um vislumbre do que vem no próximo volume, deixando o leitor com um gostinho de quero mais.

Falando sobre o livro em si, gostei bastante da edição física. A Trama caprichou bastante na capa, que tem um mapa de Sunder City, além de alguns elementos que vamos encontrar durante a leitura. Gostei também da escolha de tons que compõem a arte, em azul e amarelo, que deu um contraste interessante, apesar de já conhecido. A diagramação e revisão estão bem feitas. As páginas mais amareladas e a fonte legível completam a experiência positiva e estou ansiosa para ler a sequência.

Vocês já tinham lido este ou algum outro livro do autor? Gostam de romances noir? Me contem nos comentários!

Texto revisado por Emerson Silva

Postado por:

Hanna de Paiva

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