25 de junho de 2024

Os Garotos do Cemitério | Aiden Thomas

Olá meu povo, como estamos? Hoje eu trago a resenha da minha leitura mais recente, mas que me pergunto porque demorei tanto para embarcar na jornada: ‘Os Garotos do Cemitério’, de Aiden Thomas.

Os Garotos do Cemitério | Aiden Thomas
Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Livro: Os Garotos do Cemitério

Autoria: Aiden Thomas

Tradução: Arthur Ramos

Editora: Galera Record

Ano: 2021

Páginas: 350

País: Estados Unidos

Nota: 4.5/5

Yadriel é um garoto trans e gay que está determinado a afirmar sua identidade de gênero e orientação sexual para sua família latina tradicional. Mas, para isso, ele acaba invocando um fantasma que se recusa a ir embora. Os garotos do cemitério é uma fantasia paranormal e o marcante livro de estreia de Aiden Thomas.

Quando a família latina bastante tradicional de Yadriel tem problemas para aceitar sua verdadeira identidade de gênero, Yadriel torna-se determinado a provar que é um verdadeiro bruxo. Fortemente conservadora, a comunidade bruxe não permite que ele passe pelo ritual, com a desculpa de que a Senhora Morte não iria aceitá-lo, por conta de sua identidade de gênero e orientação sexual. Com a ajuda de sua prima e melhor amiga Maritza, ele decide ele mesmo resolver o problema, na expectativa de encontrar o espírito de seu primo assassinado e, então, libertá-lo.

No entanto, o fantasma que ele invoca é, na verdade, Julian Diaz, o bad boy da escola. e Julian não tem interesse em deixar esse mundo tão facilmente. Ele está determinado a descobrir o que aconteceu e resolver algumas pendências e pontas soltas antes de partir. Sem escolha, Yadriel concorda em ajudar Julian, para que ambos possam obter o que querem. O que Yadriel não esperava era que, quanto mais tempo passa com Julian, menos quer que o garoto se vá.

Yadriel é um jovem nascido em uma comunidade imigrante latina de bruxos, que vive em Los Angeles (Estados Unidos) e mantém suas tradições intactas há gerações. Contudo, embora sejam tesouros culturais inestimáveis, deixa o rapaz em uma situação constrangedora, pela qual seus parentes não querem buscar uma solução.

Isso porque os costumes dizem que bruxas são iniciadas como curandeiras e bruxos são responsáveis por levar cuidar das almas e libertá-las para o descanso eterno. Yadriel nasceu com magia, porém seu pai custa a querer inicia-lo no mundo bruxe pelo fato de o rapaz ser um homem trans, que se assumiu recentemente.

Embora a família tenha aceitado a mudança de vestimentas e comportamento do jovem, quando se trata das tradições mágicas, ele continua sendo visto como uma mulher que se veste de forma peculiar, porém ainda deveria ser uma curandeira. Yadriel não se conforma com essa imposição e luta com unhas e dentes para ser aceito como é de verdade.

Contudo, tentando provar que é capaz de ser tão bruxo quanto todos os demais homens da família, Yadriel se mete em uma grande enrascada, ao fazer a iniciação escondido. Com o testemunho apenas de Maritza (sua prima), o rapaz tenta localizar a alma de Miguel, seu primo, que morreu de repente e ninguém sabe onde está o corpo.

Mas ao tentar realizar o feitiço, acaba trazendo quem menos esperava: Julian Díaz, um badboy da sua escola e que nem sabe que morreu. Agora não apenas precisa encontrar seu primo, como tem que libertar a alma do colega com sucesso, se quiser ser reconhecido como bruxo. Mas a jornada para isso não será nada fácil, e Yadriel vai entender que existe uma muito mais além de uma adaga sagrada e palavras mágicas no mundo.

“Você não precisa da permissão de ninguém para ser você, Yads.”

‘Os Garotos do Cemitério’ não estavam no meu radar até que ganhei um sorteio realizado pelo perfil da @mikaleitora, há alguns anos. O prêmio foi dois livros com representatividade LGBTQUIA+, que vieram com brindes e tudo. No entanto, eles ficaram na estante por um tempo considerável.

Até cheguei a colocar eles na lista do 12 Livros para 2023, mas acabou que me enrolei e não dei conta de todas as leituras que planejei. Como agora em 2024 eu estou mais organizada nesse quesito e lendo sem cobranças, decidi colocar ‘Os Garotos do Cemitério” no 12 Livros para 2024, como representante do mês de maio.

Li até devagar, pois queria apreciar a leitura. O que deu muito certo, mas me pergunto porque enrolei tanto para conhecer esses personagens. A narrativa é em terceira pessoa e conta os fatos pelo ponto de vista do protagonista Yadriel.

Ele é um jovem trans que se assumiu há pouco tempo para a família, mas está passando por umas situações indesejadas. Isso porque seus entes queridos aceitaram muito bem quando ele se descobriu um homem trans e gay. Respeitam seu jeito de se vestir e de se comportar perante a sociedade e até o chamam pelo nome social.

Entretanto, o buraco é mais embaixo quando se trata das magias antigas. De acordo com as tradições bruxe, homens são responsáveis por libertar as almas para o descanso eterno, enquanto mulheres devem, impreterivelmente, usar sua magia como curandeiras. Qualquer variação disso é vista como algo errado e sacrilégio perante a Sra. Morte.

Dessa forma, Yadriel percebeu que tem magia correndo em suas veias e quer, como homem, ser um libertador de almas. Porém, seu pai e sua abuelita o impedem o tempo todo, alegando que será sempre “ela” diante da deusa e deve ser iniciado como uma curandeira, assim como todas as outras mulheres.

Por conta disso, muitas são as cenas de discussões e atritos que cansam não apenas Yadriel, mas também o leitor. Eu só respirava fundo a cada cena e queria abraçar ele, dizendo que tudo ia ficar bem.

Só quem lhe entende são sua mãe Camila e sua prima Maritza. No entanto, a primeira faleceu há pouco tempo e o jovem se sente sozinho a cada discussão que se vê perdendo. A prima, por sua vez, é quem lhe traz um pouco de alento nas horas de tempestade e ensina que tudo bem ser diferente.

Isso porque, mesmo tendo sido iniciada há alguns anos, a moça não se conforma com as regras rígidas que lhe são impostas. Embora tenha magia em suas veias, ela se recusa a usar sangue de qualquer animal inocente para fazer feitiços. Além disso, seu cabelo rosa e roxo, junto ao estilo alternativo, a faz uma espécie de “ovelha negra” da família. Assim, Mariza e Yadriel se entendem bem e formam o “clube dos excluídos”.

“E se você acha mesmo que qualquer pessoa na sua vida está melhor sem você, então você é mais estúpido do que parece, Julian Diaz.”

Exatamente por serem tão unidos na missão de quebrar protocolos antigos, a jovem decide ajudar o primo no ritual de iniciação secreto. Yadriel acha que se a Sra. Morte lhe abençoar com a magia, ele poderá provar sua capacidade para o pai, que será obrigado a lhe aceitar como homem de verdade e um bruxo completo.

O ritual funciona, mas até a página dois. Enquanto os primos estão comemorando o que parece ser um sucesso, algo de muito estranho acontece no cemitério, que está ligado ao desaparecimento de Miguel, um outro primo da dupla.

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

A família inteira (ou quase inteira) parte em busca do rapaz. No entanto, toda vez que Yadriel tenta falar com o pai que também quer participar das buscas, é rechaçado e enviado para ficar com as demais mulheres da comunidade. Embora seja uma preocupação de Henrique (o pai) diante de tudo que aconteceu, eu percebi que ele na verdade agia com grande preconceito em relação ao filho.

Aceitava a mudança do nome, dos trajes e do comportamento. Mas quando se tratava de aceitar a real identidade de Yadriel, ele falhava miseravelmente. O que deixava o jovem triste, desiludido e sem esperanças de algum dia ser realmente reconhecido.

Aqui estamos falando de uma história fantástica, com toques de humor e aventura adolescente. Contudo, lendo as coisas pelo ponto de vista do protagonista, deu para sentir na pele (ou ao menos imaginar) o que é ser colocado de lado e isolado dos seus apenas por ser quem é. Yadriel é forte, inteligente e um amor de pessoa, além de ser um homem de valor.

Mas nada disso parece importar para o pai, que o vê eternamente como uma menininha indefesa e que mal conhece o mundo. Ler isso dói um bocado, e mostra que ainda temos um caminho longo pela frente quando se fala de respeito e aceitação.

Muito se prega sobre ser feliz do jeito que somos e ficarmos bem com a gente mesmo. Mas me fala como isso é possível, quando sua própria família te olha como um ET a ser evitado na mesa do jantar? Isso me deu agonia e tristeza, pois eu acho que me sentiria do mesmo jeito se tivesse no lugar de Yadriel.

Assim, é completamente compreensível sua busca em provar que é um bruxo de verdade. Mas nem tudo são flores, especialmente quando o jovem conjura a alma de Julian. Ainda sem saber exatamente como morreu, o menino tem mais energia do que uma pilha Duracel e quer explorar tudo o que pode, agora que ninguém pode lhe ver.

Ou quase ninguém, já que no cemitério bruxe todos podem se enxergar, vivos ou mortos. Enquanto tenta acalmar a alma ensandecida de Julian, Yadriel quer entender como a alma de um mero mortal veio parar em um cemitério bruxe daquela forma. Mais ainda, entender como ele veio parar no lugar de Miguel, um bruxo de verdade, mas cuja alma não tem um vestígio, muito menos o corpo.

“Por quanto tempo depois de ter partido Yadriel ficaria sonhando com Julian e aquela viagem de carro? Pensou que as noites insones em seu futuro valeriam a pena.”

Conforme vão se passando os capítulos, conhecemos um pouco mais de cada personagem, além de tentar entender todo o mistério central. Achei muito inusitada a amizade que surge entre Maritza, Yadriel e Julian, que mal se falariam se fosse em condições normais.

Além disso, eu sempre quis ler esse livro pelo fato de trazer um tema que nunca vi em literatura: o Día de Los Muertos. Por ser o dia do meu aniversário, eu sempre gostei muito de compreender mais sobre a data, o motivo por ser feriado e porque alguns povos agem como se fosse uma data triste, enquanto outros acreditam ser uma das mais mágicas do ano.

Para a família de Yadriel, é a segunda opção e eu adorei ler mais sobre os costumes e tradições de dia das bruxas e dos mortos. Ainda, achei muito interessante a relação que eles têm com a Sra. Morte, ou também Santa Morte. Apesar do nome, ela é cultuada como uma deusa, pelo que entendi, o que é bem fora da caixinha para mim, já que sempre vi a Morte como algo malévolo ou apenas que leva as almas embora para o descanso.

Aqui, percebi que o culto à divindade vai muito além disso. Aprendi também o intuito das caveiras mexicanas e o motivo de não gostarem delas sendo usadas fora do contexto religioso. Eu confesso que passei a gostar bastante das caveiras quando aprendi o significado.

Mas em minha ignorância, saí procurando tudo o que pudesse, que tivesse elas estampadas. Não apenas isso, sempre tive o sonho de conhecer a festa do Día de Los Muertos no México, onde ela é mais emblemática. Entretanto, via como uma festa animada e divertida, me importando apenas com a decoração e mal me atentando para o real significado.

Depois de ler esse livro, porém, comecei a rever meus pensamentos e vi o quanto estava equivocada. Hoje posso dizer que ainda quero conhecer a festa. Mas no dia que tiver a oportunidade, irei com muito mais respeito à parte sagrada dela, como a data merece.

Voltando ao livro, eu gostei bastante de ver que, mesmo sendo um jovem com magia, Yadriel tinha uma vida comum. Não apenas ele, mas seus primos também iam para a escola e universidade, fazendo algo de útil para a população com sua magia.

Isso deixou os personagens mais reais, já que eles podem ser qualquer bom médico ou enfermeiro, que tenha “mãos abençoadas”. O que me fez relacionar aos bons profissionais que temos no mercado, com um toque de magia, que só a literatura consegue trazer.

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

No entanto, apesar de ser interessante, eu achei que o autor ficou tempo demais descrevendo a vida escolar do protagonista e esqueceu do principal: a fantasia do tema chave. Talvez se tivesse resumido esses capítulos em cenas mais curtas, teria dado mais espaço para o que realmente importava e teria gerado ainda mais emoção.

“Que possamos viver ne fé; estamos no verdadeiro caminho do nosso espírito. Que nunca temamos a morte, mas lembremos que vivemos para sempre no amor que plantamos em nosso tempo na Terra. Que possamos preservar a vida e guiá-la até a morte como Nossa Senhora deseja. Que possamos nos curar e nos apoiar mutuamente nesta vida e na próxima.”

Isso se refletiu no desfecho, que era para ter aquele impacto profundo, mas não rendeu tanto assim, por falta de espaço. O resultado foi um final amarrado, porém de forma corrida e que não teve muita ligação com algumas perguntas deixadas ao longo da leitura.

Apesar disso, é uma leitura que recomendo bastante. Me deixou com saudade dos personagens e certamente leria novamente, só para ver Julian aprontando todas.

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Falando sobre o livro em si, li o exemplar físico e posso dizer que a revisão está muito bem feita. A diagramação também é linda e combina bastante com o tema. A capa traz elementos chave da história, com Julian e Yadriel no centro, além da própria Sra. Morte.

Agora me conta, você já leu esse livro? Gosta de romances com representatividade LGBTQUIA?

Texto revisado por Emerson Silva

Postado por:

Hanna de Paiva

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