Olá meu povo, como estamos? ‘Voz de Prisão’ foi lançado há poucas semanas, mas já está circulando pelas redes sociais, por conta da adaptação para as telonas. E hoje vou deixar minhas impressões sobre a leitura, que muito me impactou.
Livro: Voz de Prisão
Autoria: Luciana de Gnone
Editora: Mapalab
Ano: 2026
Páginas: 192
País: Brasil
Formato: Impresso
Nota: 5/5
Boa Vista, 1999. Aos nove anos, Helena viu sua infância ser tragicamente interrompida quando seu pai foi assassinado. O autor do crime foi preso e solto em seguida, e o processo, que deveria trazer respostas, nunca foi concluído. Vinte e cinco anos depois, ao ingressar na Polícia Civil, Helena encontra pessoas dispostas a ajudá-la e tem acesso a ferramentas para revisitar o caso que marcou a sua vida. Ao lado da agente veterana Ana Lice, Helena mergulha numa investigação que expõe traumas pessoais agravados pela morosidade do sistema.
Voz de Prisão é um romance baseado em uma história real de justiça tardia, trauma e superação. Uma narrativa que acompanha os impactos emocionais e institucionais de um crime que atravessou décadas, deixando marcas profundas em uma família que nunca conseguiu encerrar seu luto.

Helena é uma mulher marcada pela injustiça que aconteceu na sua família. Aos nove anos, ela viu seu pai ser assassinado e o culpado por isso sair em liberdade, por conta de falhas no sistema.
Mesmo com muitas feridas abertas, ela cresceu com um grande desejo de fazer o que a polícia não fez anos atrás. Agora, com a oportunidade em suas mãos, Helena precisa decidir até que ponto tem coragem para encarar a fonte de seus maiores pesadelos.
Desde que esse livro foi anunciado, eu estava curiosa para ler. Primeiro, por fazer muito tempo que não lia nada da Luciana, de quem gosto bastante do estilo de escrita. E segundo, por ser uma proposta bem diferente do que estou acostumada, já que é uma trama baseada em fatos reais.
Se, assim como eu, você não conhecia, ‘Voz de Prisão’ é inspirado em um caso que aconteceu no interior de Roraima, durante a década de 1990. O fato abalou toda a cidade, quando um assassinato por motivos banais entrou para a estatística de casos solucionados, porém “injustiçados”, já que o culpado estava em liberdade. Anos depois ele veio à tona novamente, quando a filha da vítima conseguiu fazer o sistema andar novamente e dar um novo rumo às investigações.
E é baseado nisso que temos a trama. A autora teve todo o cuidado de mudar os nomes das pessoas reais envolvidas no caso, porém manteve um pouco de cada personalidade. E, como a pessoa principal da notícia era a filha da vítima, nada mais justo que colocar a narrativa pelo ponto de vista dela.
Assim, acompanhamos tudo que se passa na cabeça da aqui chamada Helena. Desde os nove anos, vemos como era sua relação com os pais, mesmo que separados. Embora cada um tenha seguido seu rumo, o trabalho de educar a menina sempre foi bastante cordial e todos seguiam como uma “grande família”.
Aos poucos, vamos acompanhando tudo que acontecia pelos olhos de uma criança, que estava conhecendo muitas coisas da vida. Sempre ligada ao pai, que era seu grande herói, Helena viu o mundo desmoronar depois que Pedro Batista (não é spoiler, pois está na notícia) entrou em cena.
“[…] Foi ali que aprendi a reconhecer o silêncio que antecede notícias ruins. […].”
Em um caso banal de briga de bar, que levou à morte de Vicente, toda a família da vítima viu como a justiça pode ser cega nem sempre o resultado de um julgamento vai ser favorável para quem realmente precisa.
Com esse sentimento de impunidade latente, a protagonista cresce e segue sua vida, tentando ser uma boa pessoa. Além disso, mesmo que ela lute contra, o universo conspira para que Helena siga carreira onde mais detesta (Direito). Porém ela sabe que só assim poderia trazer algum fechamento para seu passado doloroso.
Vemos então sua trajetória até chegar ao departamento da Polícia Civil, onde conhece os novos colegas de equipe, incluindo o delegado Murilo e a detetive Ana Lice. Embora já estejam lá há bastante tempo, é possível perceber como nem eles concordam com certas coisas.
Então não é difícil o caso de Helena se tornar conhecido entre os membros do departamento, que veem nisso uma chance de ajudar uma colega de azul. A protagonista se sente acolhida, mas ao mesmo tempo revoltada. Afinal, sabe que isso só está acontecendo porque agora ela está do outro lado da moeda.

E, cá entre nós, eu compartilhei dessa revolta em diversos momentos. Até porque esse é apenas um caso que foi resolvido e que bom por isso. Mas quantos outros continuam nas estatísticas de falhas na justiça e jamais terão uma resposta que traga paz aos familiares?
Acho que Helena traz bastante dessa reflexão e me fez questionar até que ponto nosso sistema realmente funciona. Além disso, remexer nisso tudo traz muitas situações desconfortáveis para ela, que até então guardava tudo para si e fingia normalidade. Mas agora se sente cada vez mais exposta, conforme mais pistas vão aparecendo no caso.
Talvez por isso, a relação dela com Ana Lice seja cheia de farpas no início. A veterana tem uma visão muito bonita do sistema, que irrita a protagonista (e ao leitor também). Então ver os debates entre as duas é bem interessante, já que trazem dois pontos de vista que raramente têm a oportunidade de conversar.
“O fato é que Ana Lice, a mulher empoderada que inicialmente temi, era como eu e qualquer outra mulher: uma pessoa com passado. Com traumas e dores. Dores nem maiores, nem menores. Apenas dores.”
Embora a personalidade toda animadinha da veterana (que beirava aos coachs da internet) me irritasse e me fizesse revirar os olhos, confesso que de vez em quando me surpreendia com seu jeito esperto de resolver as questões.

A leitura é rápida e não traz tantos conflitos (até por conta da quantidade de páginas). Contudo, os capítulos são tão carregados de emoção, que não consegui ler rápido. Precisei ir digerindo cada acontecimento como se fosse meu dilema. Sentir cada reviravolta como se fosse eu a mais interessada na resolução do caso.
Isso levou a um desfecho que me pegou de jeito e, por mais que eu tenha segurado o choro, não deixei de me lembrar do meu próprio pai enquanto estava vivo. As coisas que eu queria ter dito para ele e não falei, o remorso por não ter pedido perdão quando tive chance, a dúvida sobre se era mesmo aquilo que ele ia querer que eu fizesse…
“Eu o chamava de herói. Porque, no fundo, achava mesmo que ele era. Na verdade, era mais que isso. Meu pai era o centro do meu pequeno mundo.”
E ver Helena nessa mesma posição me fez sentir mais próxima dela e torcer cada vez mais pela vitória dela. Acho que o sentimento ficou mais evidente quando li as notas da autora e da “Helena da vida real’ (que se chama Gislayne de Deus) no início do livro (mas que fiz questão de ler depois, para não atrapalhar a experiência de leitura).
“Se, ao longo da minha carreira, tentei dar voz a mulheres que investigam, enfrentam e resistem, neste projeto encontrei a confirmação de que essas mulheres existem.”
E eu espero que a adaptação possa trazer tanta emoção quanto esse livro trouxe. Pois realmente essa família merece todo apoio e que sirva de exemplo para que a gente nunca desista de lutar pelo que achamos certo.

Falando sobre o livro em si, foi a primeira vez que li algo da Mapalab. Então eu gostei bastante da diagramação e da brochura mais molinha, que deixou a leitura bem confortável. A fonte também é bem grande, que deixa a experiência mais agradável e atenta ao que realmente importa. A capa é simples e com poucos elementos, porém eu achei uma boa sacada a explicação dele ao longo da trama.
Em resumo, ‘Voz de Prisão’ é um livro bem impactante, que vai te fazer ficar revoltado com uma série de coisas. Mas recomendo a leitura, especialmente se curte um true crime e está em busca de uma opção nacional.
