27 de June de 2026

Sangue Raro | Lucas Santana

Olá meu povo, como estamos? O projeto 12 Livros para 2026 deu mais um passinho e hoje estou aqui com as impressões sobre Sangue Raro, o escolhido do mês de maio. 

Livro: Sangue Raro 

Autoria: Lucas Santana

Editora: Naci

Ano: 2025

Páginas: 352

País: Brasil

Formato: Impresso

Nota: 4/5

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Caetano é morador do Morro da Conceição, Recife, e um “sangue-raro”: uma pessoa com características únicas e especiais cujo sangue pode ser utilizado em rituais mágicos. O sangue dele tem a propriedade de localizar pessoas. Durante uma ditadura militar para “limpar” o país dos bruxos e dos sangues-raros, Caetano é encontrado depois de tentar fugir com seu único amigo, Paulinho, e sequestrado pelo governo.

O regime o transforma numa ferramenta para buscar inimigos políticos.

Após dez anos preso, ele finalmente consegue escapar, e terá de lidar com um mundo devastado pelo ódio e pela feitiçaria. O exército tomou conta do país e, depois de se munir de tudo o que precisava, largou a população à deriva. As cidades foram tomadas pelas águas, com a vegetação e a poluição destruindo tudo pelo caminho. Jorge, um bruxo assassino, deseja utilizar o sangue de Caetano para encontrar a filha perdida, uma sangue-raro poderosa que também foi capturada.

Agora, em liberdade e aliado a esse bruxo, Caetano precisa decidir o que fazer: se torturar pelas atrocidades cometidas com o seu sangue, ou se tornar o monstro que dizem que ele é e ir atrás das pessoas que fizeram esse caos. 

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Caetano sempre soube que era diferente. Nas situações mais inusitadas, seu sangue começava a formigar dentro das veias. Mesmo que nunca comentasse nada, sentia que algo estava errado e ele não era como sua família, era algo a mais. 

Ele só não sabia a proporção que essa descoberta poderia tomar. Quando o governo começou a campanha de testagem para identificar os chamados “sangues raros”, Caetano descobriu da pior forma possível que carregava dentro de si algo que era, ao mesmo tempo, uma benção e uma maldição. 

E agora precisa decidir para qual caminho seguir, já que uma ameaça se instala no país e apenas uma pessoa de muita coragem poderá impedir os planos do governo. E mesmo que Caetano decida a opção certa, será que ele sozinho vai conseguir impedir tudo o que está por vir? 

“Engraçado. Eu nunca tinha me visto como uma pessoa que precisa ser resgatada. Estava condenado por conta de uma maldição que corria em minhas veias.”

Conheci esse livro durante a Bienal do Livro do ano passado, quando tive a oportunidade de entrevistar Lucas e pegar com elu o livro autografado. Fiquei encantada com a obra, pois a diagramação chama atenção por trazer elementos do carnaval pernambucano, além das mudanças de textura na capa, que depois eu descobri ter tudo a ver com a premissa. 

A narrativa é em primeira pessoa, contada pelo ponto de vista de Caetano, somente. No entanto, temos algumas surpresas ao longo da trama, quando percebemos os artifícios que Lucas usou para alterar um pouco isso e que rendeu uns pontos a mais para a leitura. 

O protagonista é um adolescente que está fazendo suas primeiras descobertas sexuais. Filho de uma família extremamente religiosa e cheia de preconceitos, o rapaz tem medo de se afirmar gay para seus pais e ser colocado para fora de casa. Por conta disso, vive num constante dilema entre ser feliz e seguir regras, já que sua cabeça insiste em dizer que tudo o que ele gostaria de fazer é errado. 

 Não bastasse isso, Caetano tem um formigamento esquisito em suas veias a cada vez que sente um tipo de excitação. Esse formigamento leva a uma agonia que o rapaz não consegue controlar, mas ao mesmo tempo que gosta, tem medo de ser algo ruim, como ouve seus pais falando o tempo inteiro em casa.

A sensação de ser um erro ambulante só aumenta, especialmente quando começam a surgir os burburinhos de que um novo governo militar está se instaurando, com o objetivo de “limpar” o mundo de aberrações chamadas de “sangue-raro”. 

De acordo com os novos líderes, as testagens precisam ser mais frequentes, já que pessoas com esse tipo de sangue são ruins por natureza e um perigo para a sociedade. A campanha toma uma proporção tão grande, que Caetano logo percebe que jamais vai ter uma vida normal. 

Aos poucos, vê seus amigos desaparecendo após campanhas de testagem feitas de surpresa em meio a festas e manifestações religiosas. E logo vemos uma divisão entre as ditas “pessoas de bem” e as “aberrações”. Seu único refúgio é com Paulinho, que parece saber bastante sobre essas campanhas do governo e faz de tudo para salvar o novo parceiro. 

Contudo, Caetano percebe que não tem para onde fugir, pois seu sangue é desejado até por quem ele achava ser seu amigo. Mas vai descobrir da pior forma possível o motivo pelo qual querem tanto o que correm sem suas veias. Aos poucos, a sensação de ser o erro do mundo apenas aumenta, afinal, para a sociedade, o protagonista parece um mero objeto, que não precisa ter sentimentos e nem dores. 

“Se toda a minha existência era um pecado, porque eu ainda me importava? Aliás, por que eu ainda acreditava em todas aquelas leis construídas para me oprimir?”

E vendo as coisas pelo ponto de vista da maior vítima disso tudo, a leitura se torna cada vez mais densa e por vezes repetitiva. No entanto, isso tudo se fez necessário, para que acompanhássemos a jornada de redenção de Caetano. 

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Isso porque o rapaz percebe que se não lutar contra o sistema, nada vai mudar. Ele sentiu na pele o que um governo autoritário pode fazer. Além disso, o próprio povo que antes apoiava tudo o que os mais poderosos faziam agora também precisam arcar com consequências graves e vivem com medo constante de serem as próximas feridas do mundo a serem curadas.

A Pernambuco que conhecemos como colorida e super animada logo ganha tons de cinza pelas ruas e não tem mais aquele orgulho de suas origens. O carnaval que antes era a principal bandeira do Estado agora se torna festa clandestina e passível de pena de morte. Tristeza é a nova moda e quem falar que está errado pode nunca mais ser visto. 

‘Sangue Raro’ pode ser uma distopia com toques de horror, mas se analisarmos com atenção, veremos muitas analogias a períodos que tivemos décadas atrás (e estivemos bem próximos de ter novamente), quando deixamos pessoas autoritárias demais subirem ao poder. Frases de efeito bem bonitas, campanhas de paz mundial e promessas de um mundo melhor tirando uma certa classe de pessoas do caminho. 

Mas até que ponto isso traz algum benefício? Quem foi que disse que essas pessoas de fato precisam ser erradicadas? Quem perguntar isso pode ter o mesmo destino? 

São tantas perguntas, tantas dúvidas que Caetano nos faz ter, que tornam a leitura mais indigesta. De modo especial quando ele nos mostra o caos que  Pernambuco se tornou quando o carnaval passou a ser uma festa proibida. 

Além disso, ele mesmo sempre foi forçado a se ver como uma aberração. Mas quem foi que disse que ele era uma? Por que o fizeram acreditar nisso? É o que ele começa a se questionar. E quando começa a encontrar suas respostas, precisa também aprender a lidar com as consequências que suas escolhas terão a partir daí. 

O livro tem uma classificação de +18. E conforme eu fui lendo, entendi o motivo. Não é apenas pelas cenas de sexo, que são bem frequentes, mas também por conta de uma série de atrocidades que essa história carrega.

E não é algo ruim de se ver, muito pelo contrário. Achei que foi uma forma de dar uns belos tapas na nossa cara sem luva de pelica e nos mostrar o quanto o ser humano é ruim, se você der a ele uma pitada de poder. 

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Vimos isso diversas vezes ao longo da história da Humanidade. E vamos continuar vendo, pois certas coisas nunca mudam. E é muito fácil dizermos que são coisas boas quando não somos nós o alvo das atrocidades impostas. Mas Caetano nos mostra exatamente o lado que ninguém quer ver, ninguém quer sentir. 

“Não adiantava eu colocar lógica nas ações de um psicopata. Não adiantava fazer perguntas, esperando sinceridade. Ele era um assassino, no fim das contas.”

Talvez por isso o rapaz seja um poço de autoestima baixa e constante dúvida de si mesmo. O mundo inteiro o fez se sentir o erro do mundo e Caetano acredita piamente nisso. Apesar de me dar muitos momentos de raiva, em que eu queria entrar no livro e dar umas belas sacudidas no rapaz, para ele parar de se lamentar, a verdade é que talvez eu estivesse do mesmo jeito que ele se passasse pela mesma situação. 

Fiquei revoltada também ao notar como o mundo tratava ele. Não importa para onde fosse, ele sempre era visto como uma mera fonte de sangue e nada mais. Bruxos, militares, reles mortais, não importa. 

Se olharmos com mais atenção e profundidade, veremos que Caetano era a maior fonte de poder na trama, já que todos dependiam do sangue dele para que os feitiços funcionassem. Mas enquanto o mundo o fizesse se enxergar fraco, era fácil manter o rapaz controlado e submisso.  

Essa é uma grande ironia da história. Mas se a gente for olhar para muitos governos, percebemos que temos diversos “sangues-raros” por aí só esperando se descobrirem mais fortes para mudar o sistema. Isso só me fez torcer mais pelo protagonista e torcer para que ele enxergasse logo a força que tinha dentro de suas veias. 

E demorou, mas gostei bastante de quando isso aconteceu. O resultado foi um desfecho carregado de reviravoltas, com muitas respostas sendo dadas (Lucas conseguiu segurar todas elas por tanto tempo, que nem eu achei ser possível, haha). Além disso, tem algumas coisas que ficaram sem resposta, dando uma ideia de que teremos sequência. Se tiver mesmo, ficarei imensamente feliz em ver como essa fofoca termina. 

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

“-Tu escolhe o que faz com o que dizem pra tu, moleque. Ou tu engole, ou tu mastiga e cospe.”

Falando sobre o livro em si, gostei bastante da diagramação. Tem uma fonte legível, a revisão bem feita e gostei bastante da mudança de textura da capa. Ela tem apenas um elemento em destaque, que é muito importante para toda a trama. Além disso, as páginas mais grossinhas e amareladas me renderam uma experiência mais positiva com a leitura, além da brochura mais molinha, que foi perfeito, já que o livro não é muito curtinho. 

Em resumo, ‘Sangue Raro’ é uma baixa fantasia urbana, que passeia pela distopia e pelo horror com maestria. Mas é preciso ter estômago forte para acompanhar tudo o que acontece. No entanto, mesmo com os elementos fantásticos, é uma realidade totalmente plausível de acontecer, o que deixa a trama ainda mais densa, porém necessária de ser lida.

Postado por:

Hanna de Paiva

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