22 de setembro de 2022

Eu, Inútil | Cibele Laurentino

 Olá meu povo, como estamos? Hoje temos a resenha de um romance nacional que me tirou da caixinha. Com vocês: ‘Eu, Inútil’, da autora Cibele Laurentino.

 

Eu, Inútil | Cibele Laurentino
Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

 

Obs.1: Livro lido em parceria com a autora (Publicidade).

Obs.2: Disponível no Kindle Unlimited

ALERTA: Pode ter gatilhos de abandono parental e depressão.

48/24
Livro: Eu, Inútil
Autora: Cibele Laurentino
Editora: Independente/Amazon
Ano: 2022
Páginas: 136
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Madalena acreditou durante muito tempo que seu nome era “Inútil”, pois era assim que sua mãe a chamava. Cresceu distante do pai e só começou a frequentar a escola aos oito anos de idade. Mesmo depois de anos distante da mãe, seus traumas afetam sua capacidade de construir relações e sua autoestima.

‘Eu, Inútil’ é um romance de formação que traça a jornada de uma mulher que deseja ser amada por uma mãe narcisista.

 

 
 
 

 

Eu, Inútil | Cibele Laurentino

 

 
Madalena é uma garotinha indesejada e sua mãe faz questão de deixar isso bem claro a cada momento. Sempre chamada de “Inútil” em casa, ela passou bastante tempo achando que esse era seu nome.
   
Tudo que sua mãe sofria na rua ou ouvia dos vizinhos era culpa da “Inútil”. A “Inútil” que só veio ao mundo para estragar o corpo da mãe e ainda era “cheia de problemas”. 
   
Sem amigos, sem convívio com os familiares, Madalena só tinha o exemplo de “amor” vindo da mãe e achava que a vida era assim. Até o dia em que seu pai reaparece e decide marcar presença na vida da filha.
   
Agora, Madalena tem uma decisão a tomar, a qual pode mudar para sempre seu destino: ficar com a mãe que lhe criou a base de ódio esse tempo todo, ou aceitar o carinho de um pai tentando recuperar o tempo perdido?
‘Eu, Inútil’ é um romance que não estava no meu radar até pouco tempo atrás. Apesar de curtinho, ele traz uma narrativa triste e carregada de sentimentos, que precisei ler em doses homeopáticas.
   
A história é contada pelo ponto de vista da própria Madalena, de quem acompanhamos a jornada desde criança até ser uma mulher adulta. Na primeira fase, vemos uma garotinha que só queria o carinho e o cuidado da mãe, porém nunca conseguia.
   
Na vista dos outros eram muito unidas, mas bastava a plateia virar as costas para que Helena, sua mãe, começasse a reclamar. A mulher é amargurada por ter sido abandonada durante a gravidez e nunca se recuperou. No entanto, o jeito como lida com isso é questionável.
   
Se diz preocupada com a filha, especialmente por ser mãe solteira e alegar que tem responsabilidade dobrada. O que seria compreensível se ela não aproveitasse para colocar a autoestima da criança para baixo a cada oportunidade. Madalena é sempre “a gorda”, “a doente”, “a inútil”, “a feia” e nem tem o direito de chamar a própria mãe pelo título.

 

 

“Às vezes as palavras machucam mais que uma pisa.”

 

 

Além disso, o simples fato de Madalena querer brincar dentro de casa é motivo de discussões em níveis que acabariam com a sanidade mental de qualquer adulto, agora imagina a de uma criança inocente? 
   
Nem preciso dizer o quanto tive ranço de Helena desde o começo. É uma mulher falsa, vitimista e egocêntrica. Tudo que se diz fazer por amor à filha é mais para causar uma boa impressão do que realmente por amor.
   
As coisas só mudam um pouco (ou não) quando Madalena entra na escola, o que foi quase um milagre, diga-se de passagem. Lá ela aprende que é possível ter um dia feliz e tranquilo, longe do baixo astral da mãe.    Entretanto, tudo fica ruim de novo quando a aula termina e a garotinha precisa voltar para casa.
   
Seu consolo é um diário e um bichinho de pelúcia, os únicos amigos que lhe foram permitidos. Taxada de doente e tomando remédios fortes, Madalena perde um pouco a noção de realidade. 
   
Deste modo, o máximo que sabemos sobre o que acontece em sua casa é o que escreve em seu diário em tempos de lucidez ou desespero, por ter dito uma palavra errada e ficado de castigo (se enredando cada vez mais na teia de sofrimento da mãe). 
   
Eu só queria levar Madalena embora daquela casa e dar um lar de verdade, que toda criança merece. Conforme crescia, nossa protagonista entendia melhor o que acontecia ao seu redor. 
   
Assim, também sabemos um pouco sobre suas próprias origens, especialmente quando seu pai aparece. Helena pinta o ex-namorado como um monstro. Se eu já tinha ranço dela antes, aumentou mais ainda. Mesmo que eles não tivessem o relacionamento dos sonhos, Madalena não tinha culpa e não merecia sofrer pelas escolhas dos adultos.

 

“A felicidade é mesmo assim, é mais rápida que a tristeza; a tristeza mastiga a gente.”

 

 

Alfredo (o pai) sabe que teve seus erros do passado e precisa arcar com as consequências. Conforme lia e entendia a história por outros ângulos, comecei a gostar mais dele.
   
O rapaz sabe que não pode recuperar toda a infância da garotinha, mas tenta ser um pai de verdade e marcar presença a partir daquele momento. Isso o faz maduro e racional, ganhando alguns pontos comigo. 
 
 

 

Eu, Inútil | Cibele Laurentino
Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

 

 
 
Além disso, foi uma figura muito importante na vida da mocinha, que está ficando mais velha e precisa de muita ajuda para se libertar do ambiente tóxico que Helena fez questão de criar. Por mais que ela “vencesse na vida’, nunca era o suficiente para a mãe. Nunca era como a fulana ou a cicrana que tinha um emprego de verdade e seguia a lista de realizações dos adultos na ordem certinha.
   
Talvez por isso ela demorasse tanto a amadurecer. Bastava um passo adiante para voltar três para trás. E sinceramente, não a julgo. Se eu tivesse vivido num lar como o dela, se é que posso chamar de lar, talvez pensasse do mesmo jeito.

 

“Achava que só tinha nascido para acabar com a vida de mainha.”

 

 

 E o pior foi pensar em quantas crianças (até adultos) tem exatamente essa realidade e não se sentem bem dentro da própria casa. Não é à toa que a sociedade anda tão doente nos últimos tempos e se bate tanto na tecla do cuidado com a saúde mental. 
   
Mesmo que eu não tenha vivido uma situação como essa realidade diretamente, senti na pele ao ler o que Madalena passou e não foi uma leitura fácil. Além disso, confesso que me identifiquei ao ler os pensamentos da moça já adulta e lutando contra mil demônios imaginários, seja apenas para se olhar
no espelho e se sentir bem com o que via, ou para expressar o desejo de fazer alguma coisa. 
   
Claro que a batalha dela não chega nem perto da minha, mas eu cresci também com pessoas colocando minha autoestima lá embaixo e precisei (ainda preciso) de muita terapia para lutar contra isso todos os dias. Assim, vendo o quanto a protagonista consegue se desenvolver e lidar com seus dilemas pessoais de forma adulta é uma vitória para nós duas
   
Achei muito bonito como a autora lidou, de uma forma poética e delicada, com tantos assuntos fortes e tão necessários hoje em dia. Ela também abordou a necessidade dos cuidados com a saúde mental de maneira fluida e simples, que não soou forçado e atingiu o objetivo: fazer o leitor refletir.
   
Tanto o prefácio quanto o posfácio têm mais mensagens reflexivas a respeito. Isso me fez ficar pensando por dias até decidir como escreveria essa resenha, de uma forma que pudesse dizer o que ela representa para mim.
   
A verdade é que não sabemos nem a metade das batalhas diárias que as pessoas ao nosso redor enfrentam. Por trás de um sorriso pode estar uma pessoa triste e com uma dor sem fim.
Terminei a leitura pensando exatamente nisso e foi bom ter conhecido a obra exatamente no mês do setembro amarelo. O desfecho é previsível, porém digno. Todos os personagens, até os secundários, são muito bem desenvolvidos e tem seu final merecido.
   
Em relação ao livro em si, eu achei a escrita da autora muito fluida e a trama bem elaborada. Mesmo com poucas páginas, ela soube manter uma história com começo, meio e fim bem definidos. Os personagens entram e saem de cena nas horas certas e, mesmo os “mocinhos” tem seus momentos de falha, o que os torna mais humanos e críveis.
 
 
Eu, Inútil | Cibele Laurentino
Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

 

 
 
Além disso, descobri que a Cibele é natural de Campina Grande (minha quase conterrânea). Ler uma boa parte do livro com várias gírias e palavreados em “paraibês” foi uma verdadeira nostalgia. A diagramação está muito bonita, embora não ache que a capa combine muito com o que a trama traz. Ela é simples, em tons de rosa e branco, com uma boneca no centro, a qual imagino ser a própria Madalena. Entretanto, lendo a descrição da protagonista, não combina em nada e não vi mais sentido.
   
Em resumo, é uma boa leitura que recomendo. Porém, aconselho a arranjar uma caixa de lenços, pois vão precisar. 

 

 

 
 
 
Já conheciam esse livro? Gostam de obras que falem sobre mãe e filha? Me contem aí!
 
 
 
 
 
Texto revisado por Emerson Silva
Postado por:

Hanna de Paiva

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