Olá meu povo, como estamos? O projeto 12 Livros para 2026 desacelerou um pouco, porém eu tenho um bom motivo para isso. E pretendo contar agora, junto com as impressões finais que tive com mais um caso de Maisie Dobbs.
Livro: O Caso das Penas Brancas
Autoria: Jacqueline Winspear
Tradução: Nina Shipper
Editora: Arqueiro
Ano: 202
Páginas: 336
País: Inglaterra
Formato: Impresso
Nota: 4/5
Um dos mais ricos comerciantes da Inglaterra, Joseph Waite sempre deu o melhor para a filha, Charlotte, mas jamais permitiu que ela tivesse uma vida livre.
Na primavera de 1930, quando ela foge de casa, Waite mantém o caso longe da polícia e procura os serviços de Maisie Dobbs, conhecida por sua discrição e seus poderes de dedução.
Em sua busca, ela se dá conta de que há conexões entre o desaparecimento da moça e um assassinato que está sendo investigado pelo inspetor Stratton, da Scotland Yard.
Com sua perspicácia, Maisie já conquistou o respeito do detetive, mas vai precisar convencer a polícia – mais uma vez – de que uma mulher é tão capaz quanto um homem no combate ao crime.
Ao descobrir que há ainda mais mortes envolvidas na trama, ela percebe que precisa desenterrar o passado traumático da Primeira Guerra e resolver o mistério antes que mais uma tragédia ocorra.

Maisie Dobbs aprendeu bastante desde que começou a fazer suas aulas de detetive com Maurice. Agora, o professor vive sua aposentadoria no interior, enquanto a moça comanda os negócios na capital inglesa.
Junto com Billy, seu parceiro (não apenas de trabalho investigativo, mas também trabalharam no front durante a guerra), eles seguem todas as pistas e não descansam enquanto não resolverem os casos para os quais são contratados. Por conta disso, o escritório tem uma fama crescente, o que levou a uma consequente grande procura por parte dos clientes.
É numa dessas que conhecemos Joseph Waite, membro de uma das mais poderosas famílias da cidade. Ele está desesperado para encontrar Charlotte, sua única filha, desaparecida há dias. O patriarca não quis chamar a polícia, para evitar grandes escândalos.
Contudo, todo minuto conta para saber onde sua filha está. Assim, ele não pensa duas vezes antes de contratar os serviços de Maisie. A moça aceita o caso, que começa a ficar mais complicado conforme parece ter ligação com um assassinato atualmente investigado pela Yard.
Não bastasse isso, a detetive precisa lidar com alguns traumas de seu passado antes de enxergar qualquer resposta. Será que ela vai conseguir?
“[…] Como eu disse muitas vezes, minha querida, cada caso tem um modo de iluminar algo que precisamos saber sobre nós mesmos.”
Fazia muito tempo que não lia os livros da série de Maisie Dobbs. Eu já tinha comprado os três primeiros volumes, porém ficaram encalhados na estante por anos até eu criar coragem para ler a sequência. ‘O Caso das Penas Brancas’ é o segundo volume e decidi que seria uma boa colocar ele no desafio dos 12 Livros para 2026. E, felizmente, não tive dificuldade alguma em voltar para este universo.
Enquanto no primeiro temos uma Maisie ainda aprendendo a ser detetive, com seu mentor do lado, agora ela já é dona do negócio e está construindo uma carreira de sucesso. Na década de 1930 havia muitas pessoas com cicatrizes por conta da guerra, incluindo a própria Maisie, que trabalhou como enfermeira.
Billy também não ficava atrás, já que ele foi um dos soldados que tiveram sequelas (físicas e emocionais) por conta das batalhas. Os dois formam uma boa dupla e tentam não pensar nisso enquanto focam seus esforços para resolver crimes.

No entanto, vai ser difícil fazer isso dessa vez, já que o novo caso de Maisie envolve feridas de guerra. Joseph Waite é um magnata que não está acostumado a ouvir não. Seu dinheiro sempre abriu muitas portas e ele sempre resolveu tudo da forma mais fácil que conhecia. Só que agora ele sabe que vai precisar de mais do que uma conta bancária, se quiser ter um pouco de paz no coração e sua filha de volta.
Porém, mesmo sendo um potencial cliente, eu tive ranço dele logo de cara. Achei incrível como alguém conseguia ser tão misógino e mal-educado como Joseph Waite apareceu neste livro.
Toda vez que aparecia em alguma cena, eu revirava os olhos, já imaginando qual seria a próxima besteira machista que falaria, ainda mais sabendo quem era a detetive contratada. Se eu pudesse, entrava no livro e dava uns sacodes dele, além de mandar fazer melhor, se reclamava tanto.
Apesar de ter todas as chances de mandar Joseph pastar, havia algo que chamava a atenção de Maisie e ela não ia descansar enquanto não obtivesse as respostas. E ela consegue, ao mesmo tempo em que lida com seus fantasmas do passado.
Acho muito curioso o modo como a autora foge da modinha dos suspense frenéticos e cheios de reviravoltas, que nos fazem devorar o livro. Aqui, você vai encontrar o completo oposto. Isso porque a história não traz apenas um mistério a ser resolvido, mas também uma história de vida a ser contada.
Maisie é psicóloga, porém segue a regra do “faça o que eu digo, mas não o que eu faço”. Assim, ela é mestre em identificar as dores dos outros, deixando as dela própria de lado. Porém agora ela sabe que vai precisar olhar para as feridas do passado, além de lidar com as consequências.
Com cenas mais aprofundadas e até uma veia mais melancólica, somos convidados a seguir tudo o que a protagonista sentia. Dessa forma, não pude deixar de me solidarizar com as escolhas dela, bem como com os arrependimentos (que me identifiquei em diversos momentos).
Talvez por isso, a narrativa segue densa em boa parte do livro, trazendo camadas e mais camadas de drama, dor, mas também um pouco de redenção. Isso eu consegui ver tanto pela parte de Maisie, quanto pela de Billy, que também tem seus dilemas.
A relação que a dupla tem vai além do profissional. Os dois são grandes amigos e Maisie faz de tudo para ajudar, mesmo que seu assistente não concorde no começo. Embora tenha achado que ela passou dos limites em diversos momentos e até soasse desnecessária, percebi que a moça tinha boas intenções e só se preocupava com o parceiro.
“[…] A história de cada narrador revelava apenas uma perspectiva, uma representação da pessoa que Charlotte demonstrava ser diante de cada companhia. Onde residia a verdade? Quem de fato era Charlotte?
Billy, por sua vez, é aquele assistente que tem muito boa vontade, que faz de tudo para se mostrar produtivo. Contudo, por mais que sua ousadia rendesse bons frutos nas investigações, eu me preocupava com a negligência dele com a vida pessoal. Por isso eu deixei de julgar Maisie quando insistia em ajudar o amigo, já que estava na cara que sozinho ele não se ajudaria.

Outra relação bonita é a que acontece entre a protagonista e o pai. Ele é o único laço familiar que a detetive tem. Logo, ela sentia uma certa pressão em parecer a filha perfeita e exemplar, que pode carregar o mundo nas costas e achar que está tudo bem.
Já o pai é um docinho de pessoa. Ele faz questão de se manter ativo e cuidar dos cavalos de Lady Rowan no haras. E aos poucos vamos entendendo como a relação dos dois foi se tornando distante. Porém, achei bem legal acompanhar a jornada da detetive em reverter a situação e tentar buscar novas lembranças com seu progenitor.
Isso me fez lembrar a relação que eu tinha com meu pai (já falecido), além de alguns momentos que me arrependo de não ter me permitido ter mais com ele. Se eu tivesse a chance de voltar no tempo, certamente teria aproveitado mais e guardado mais lembranças boas.
Talvez por isso, toda vez que eles contracenavam juntos, eu me pegava sorrindo e queria guardar num potinho. Acho que no fundo eu me via como ela e também tentava buscar minha própria redenção.
“-Há outra coisa sobre a guerra que detesto. Ela não acaba quando chega ao fim. É claro, parece que todos se tornam amigos novamente, depois de todos os tratados, dos acordos internacionais, dos contratos e assim por diante. Mas a guerra continua a viver dentro dos vivos, não?”
Com relação ao mistério, gostei de como tudo se desenrolou. Por diversos momentos, me peguei bancando a detetive, tentando juntar as pistas e criando minhas teorias. Algumas eu acertei, mas a principal eu errei miseravelmente. O que em nenhum momento foi ruim, muito pelo contrário.
Até achei interessante como o título do livro foi explicado. Todas as pontas foram amarradas e a autora teve uma boa sacada ao criar o ganho para o terceiro volume. Minha única “reclamação” sobre esse livro é que algumas cenas de rotina diária estavam extensas demais e deixavam a narrativa mais arrastada do que deveria.
Se elas tivessem sido resumidas, ou mesmo cortadas, teria economizado algumas páginas e ainda manteria a emoção da leitura mais imersiva. Ainda assim, valeu a leitura e recomendo, especialmente se estiver em busca de um suspense mais leve. Além disso, o que mais gosto da escrita da autora é a forma como ela inclui assuntos importantes de forma mais sensível e condizentes com a trama.

Falando sobre o livro em si, eu li em versão física e posso falar que gostei bastante da diagramação, simples, ao mesmo tempo elegante. A fonte é confortável para a leitura, assim como as páginas mais grossinhas e amareladas (que a leitora míope agradece, haha). A capa segue o padrão da série, com ilustrações e destaque para a protagonista, além de detalhes que já nos mostram o que iremos encontrar ao longo das páginas.
Agora me conta nos comentários: gosta de cozy mistery? Já tinha lido algo da autora?
