28 de maio de 2024

Uma Família Feliz | Raphael Montes

Olá meu povo, como estamos? Hoje eu trago a resenha de um livro bastante hypado nos últimos tempos, especialmente por conta do filme que lotou as salas de cinema. Estou falando de ‘Uma Família Feliz’, o mais novo thriller do autor nacional Raphael Montes que promete deixar os leitores de cabelo em pé.

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Livro: Uma Família Feliz

Autoria: Raphael Montes

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 352

Ano: 2024

Formato: Impresso

País: Brasil

Nota: 3/5

Em Uma família feliz, o mestre do suspense Raphael Montes desbrava as tensões das relações familiares e do mundo de aparências de um condomínio perfeito, em uma trama complexa sobre infância e maternidade. Do criador da série original Bom dia, Verônica (Netflix) e da novela Beleza fatal (HBO).
Eva tem a vida perfeita. Seu marido é um jovem advogado em ascensão. Suas filhas gêmeas são lindas, inteligentes e saudáveis. Seu trabalho, a arte reborn, é um sucesso na internet. À sua volta, tudo está à mão: o Blue Paradise, condomínio fechado de classe média-alta na Barra da Tijuca, oferece todo tipo de serviço para que ela não precise sair do conforto de seu lar. Eva tem a vida perfeita ― até descobrir que está grávida e seu mundo virar de cabeça para baixo.
Conhecido por seus suspenses de tirar o fôlego, com mais de 500 mil exemplares vendidos, Raphael Montes inova ao começar este thriller psicológico pelo último capítulo. Assim, como uma bomba-relógio prestes a detonar, acompanhamos os caminhos surpreendentes e as tensões que levam essa família feliz a um final avassalador.

Eva e Vicente têm uma vida perfeita. O casal mora no Blue Paradise, um condomínio de luxo na Barra da Tijuca (Zona Sul do Rio de Janeiro), com tudo do bom e do melhor ao seu dispor.

A vizinhança é amigável e muito unida, especialmente por conta das crianças, que estudam na mesma escola. Todas as mães são solidárias e fazem de tudo para se ajudarem, de modo especial quando Eva se descobre grávida.

Apesar de ser um momento esperado e adorado por todos, o destino da mocinha está prestes a virar de cabeça para baixo. Coisas estranhas começam a acontecer à sua volta e tudo leva a crer que a saúde mental de Eva está em colapso.

Com a dúvida constante sobre o que é real ou loucura, a atmosfera se torna sombria em todo o condomínio. Tudo pode ser uma pista para entender até que ponto as aparências enganam e famílias felizes podem nunca ser reais.

Rapahel Montes é um dos nomes mais fortes da literatura brasileira, sobretudo nos gêneros de terror e suspense. Ele é roteirista de muitos filmes e séries que ganharam destaque recentemente, que o tornaram quase que uma referência mundial (se já não for).

No entanto, nunca tinha me aventurado em ler suas obras. Meu único contato com o trabalho de Raphael foi ao assistir a primeira temporada de Bom Dia Verônica, que foi o suficiente para me deixar com nojo e medo do escuro ao mesmo tempo (e olha que vi durante o dia e acompanhada da minha mãe).

‘Uma Família Feliz’ ficou bastante hypado, por conta do roteiro do filme que saiu há pouco nas telonas. Logo em seguida, o autor lançou o livro homônimo, o qual fez tanto sucesso quanto o filme, embora sejam histórias com pontos diferentes (algo já esperado).

Como ainda não tive a oportunidade de assistir ao filme, hoje contarei minhas impressões unicamente do livro. Caso eu consiga, depois volto aqui com minhas impressões sobre ele também (talvez até faça uma comparação livro x filme).  

A narrativa é em primeira pessoa, pelo ponto de vista de Eva. A moça teve uma infância e adolescência bem difíceis, com uma mãe relapsa e claramente desequilibrada. Por conta disso, sonhava com o dia em que tivesse uma vida tranquila e feliz, bem distante de tudo o que já presenciou no passado.

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Seu sonho se realiza quando ela conhece Vicente, um homem apaixonado por ela e disposto a lhe dar um futuro digno de rainha. O rapaz é um advogado em ascensão, que trabalha bastante e está sempre correndo para o escritório.

Contudo, mesmo com a rotina corrida, ele faz de tudo pelas suas filhas gêmeas e pela esposa. A família é perfeita e muito feliz, vive sorrindo e tem uma rotina certinha para todos verem.

“Para variar, estou apenas problematizando enquanto deveria apenas me inundar por sentimentos bons.

Por sua vez, Eva tem um trabalho em casa, com bebês reborn, os quais lhe rendem um perfil grande e famoso no Instagram, além de diversas encomendas. Eu confesso que nunca tinha ouvido falar nesse tipo de arte realista até ler ‘Uma Família Feliz’ e depois pesquisei na internet. Achei um trabalho bastante inusitado, ao mesmo tempo detalhista e mórbido. Mas pelo visto é bem requisitado e tem bastante gente que trabalha fazendo esse tipo de bebês.

Voltando ao livro, Eva também tem um grande apreço pela profissão, contando ao leitor diversos detalhes da montagem dos bonecos e como são feitos os envios para as clientes. Ela vive tanto no meio de bebês de mentira, que não estava pronta para receber a notícia de logo teria um de verdade em seus braços.

Embora seja uma boa mãe para as gêmeas, é nítida sua surpresa e medo diante da gravidez. Isso porque ela tem muito medo de que um dia seja igual a sua própria progenitora e cometa as mesmas atrocidades com pessoinhas inocentes.

Além disso, sua vida está a um fio de virar de cabeça para baixo, conforme as pessoas à sua volta descobrem de sua nova fase. Vicente está radiante e não vê a hora de ter mais um rebento em casa. As gêmeas seguem ansiosas por um irmãozinho.

Os sogros oferecem toda ajuda possível, mas só aparecem para dar pitaco e sair correndo no próximo cruzeiro. Assim como as vizinhas, que vivem reclamando dos filhos, mas do nada se transformam em experts na criação do filho alheio. 

Eu nunca fui mãe, e por enquanto não está nos meus planos. Mas vendo tudo pelo ponto de vista de Eva, dá para entender como a coitada se sente pressionada a ser a mãe cada vez mais perfeita. Dessa forma, é impossível não se sentir solidária e querer abraçar a mocinha, dizendo que tá tudo bem e que será uma boa mãe, do jeito dela.

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Ao mesmo tempo, dá vontade de mandar todo mundo que se mete na vida dela plantar batatas e arranjar soluções para os próprios problemas. Especialmente em relação a algumas vizinhas mexeriqueiras, que não conseguem dar conta do próprio pestinha que tem em casa, mas acha que sabe cuidar do filho nem nascido das outras.

“Enquanto revolvo a terra, repasso cada instante, cada escolha, cada migalha de culpa e omissão que me trouxe até aqui. É um caminho repleto de buracos e zonas cinzentas. Não posso ficar sofrendo. Não tem mais volta. Aconteceu.”

Aliás, mesmo que seja chato e incômodo, se os dilemas de Eva se resumissem apenas a isso, a vida seguiria em paz (ou quase). Mas coisas muito estranhas começam a acontecer dentro de sua casa, as quais desafiam a sanidade de qualquer um.

A moça tem problemas sérios por conta dos fantasmas de seu passado. Ela se recusa a fazer terapia e acha que a melhor forma de vencê-los é esconder tudo debaixo do tapete e fingir que nunca aconteceram. Contudo, o método não é nada eficaz e os hormônios da gravidez evidenciam bastante as falhas do plano.

Além disso, Eva tem muito medo de ter herdado o “sangue ruim” de sua mãe, o que rende diversas cenas tristes, pesadas e filosóficas sobre o quanto nossa criação influencia na nossa vida adulta. Uma das consequências das feridas emocionais da protagonista é seus lapsos de memória e apagões, os quais se tornam mais frequentes quando Lucas nasce.

A verdade é que Eva sofre muita pressão por ser a mãe perfeita. E ver que todos a cobram muito, mas ajudam pouco é revoltante, ainda mais dentro de casa. Vicente é um bom pai e paga de bom marido, mas só ajuda quando tem gente perto, para manter a pose de seguidor de Rodrigo Hilbert.

Quando a porta se fecha, ele é machista, egoísta e joga tudo nas costas da esposa, como se ser dona de casa fosse algo simplório e sem valia. Me dava vontade de socar a cara dele a cada vez que vinha com aquele discurso nojento, disfarçado de palavras bonitas de advogado (que nem era dos mais importantes, por sinal).  

Porém, fica difícil manter as aparências quando certas coisas começam a aparecer nas mídias e tudo aponta para Eva, que ganha status de louca em rede nacional. Por mais que tente provar sua inocência, as formas pelas quais a moça tenta fazer isso só a enrolam mais ainda.

O autor fez um bom trabalho, mostrando o quanto as redes sociais podem ser tóxicas e o poder das fake news. Embora seja algo comum nos jornais, ainda mais nos últimos tempos, é assustador ler em detalhes o que uma pessoa sofre, vendo sua vida desmoronar por coisas que não pode provar.

“A coisa fugiu totalmente do controle. É como um câncer em metástase. Todos estão sabendo.”

Mesmo assim, ela não desiste e vai buscar justiça para si mesma, nem que seja a última coisa que faça nessa vida. E o que ela encontra é inacreditável e…broxante.

Eu gostaria de dizer o quanto a narrativa foi eletrizante e me surpreendeu, ainda mais por ter vindo de um autor consagrado. Mas não foi bem assim, e vou dizer o porquê.

A narrativa tem muito potencial, ainda mais com a forma como foi organizada, que deixa o leitor curioso para saber como toda a fofoca aconteceu. Mas a minha curiosidade foi se esvaindo a cada capítulo em que eu notava só pontas soltas e nenhuma resposta.

O livro é mediano na quantidade de páginas, logo tem um espaço considerável para que a trama tenha um começo, meio e fim bem definidos. Porém, a forma como os fins são justificados não são convincentes.

Foto: Hanna de Paiva | Mundinho da Hanna

Eva é uma detetive amadora, tentando provar sua própria inocência. Logo, é esperado que ela esteja desesperada e cometa erros. Embora eu fosse ficar com muita raiva pelas suas atitudes, logo a perdoaria e seguiria em frente, pois no lugar dela, talvez eu fizesse as mesmas besteiras.

Mas o autor acabou querendo causar tanto, que se perdeu e não sabia como terminar o livro. Pelo que ele relata, o roteiro do filme já existia e estava sendo gravado quando ele escreveu o romance. Sendo assim, creio que ele estava pensando em muitas coisas ao mesmo tempo e não prestou muita atenção ao que escrevia.

Ao menos é essa a sensação que o leitor tem quando vê o desenvolvimento da narrativa. Isso porque o Raphael joga diversos assuntos sérios na investigação da Eva, mas de forma tão aleatória, que fiquei me perguntando o porquê de ter usado o recurso, se não seria aproveitado depois.

O que me decepcionou um bocado e eu só queria terminar logo o livro, para poder reclamar com propriedade depois. Não que os assuntos não fossem importantes, mas parecia que ele estava fazendo um feitiço e jogando todas as opções num caldeirão, para ver qual combinação daria certo.

“Não consigo deixar de pensar que, onde quer que minha mãe se encontre, ela deve estar sorrindo ao me ver desse jeito, destruída e sangrando.”

Se ele tivesse usado apenas um dos assuntos e seguisse até o fim, teria sido um suspense de tirar o chapéu e teria sido um favoritado. Porém, quando você acha que já não tem mais nada para acontecer, o autor tira mais um argumento da cartola e fecha o livro de uma forma que beira o absurdo e totalmente sem sentido com o que vinha sendo apresentado.

Por ter sido meu primeiro contato com as obras do autor, eu fiquei bem decepcionada. Além disso, não acho que ‘Uma Família Feliz’ valha o hype. Há quem diga que o filme completa o livro, o que achei esquisito e meio que força você a entrar num esquema de pirâmide, já que precisa de outra mídia para entender a história inteira, sem necessidade.

Falando sobre o livro em si, eu li o livro físico e posso dizer que está bem diagramado, com uma fonte legível e revisão bem feita. As páginas são bem grossinhas e amareladas, o que facilita e muito a vida da leitora míope que vos escreve (rsrsrs). Mas não gostei muito da capa. Embora tenha elementos da trama, achei que ficaram meio bagunçados e sem sentido na arte (mas isso é opinião minha, que não interfere na experiência do leitor).

Em resumo, ‘Uma Família Feliz’ é um suspense com grande potencial e promete muitos sustos e teorias da conspiração. Mas se perde no meio do caminho e você termina com muitas perguntas e poucas respostas. Contudo, mesmo que não tenha funcionado para mim, recomendo que leiam e tirem suas próprias conclusões.

Agora me conta, você já leu esse livro ou algum outro do autor? Já se decepcionaram com um livro hypado demais?       

Texto revisado por Emerson Silva

Postado por:

Hanna de Paiva

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